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Com novas regras, litoral norte de SP testa estrutura para receber cruzeiros

Em lenta retomada, Ilhabela espera 64 desembarques de transatlânticos depois de reforma do píer

Luxuoso transatlântico na orla de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo

Luxuoso transatlântico na orla de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo Zanone Fraissat/Folhapress

Mariana Zylberkan
Ilhabela (SP)

O tempo no centro de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, é regido por uma tabela. Garçons, vendedores e guias de turismo têm sempre em mãos a escala de navios de cruzeiro que aportam no arquipélago e despejam filas de turistas pelas ruas do centro histórico. Até o fim de março, estão previstos 64 desembarques de transatlânticos.

O fluxo de turismo náutico esperado é maior do que o ano passado, quando a cidade recebeu 52 escalas, mas bem menor do que os 152 desembarques registrados no verão de 2010. A retomada, apesar de lenta, chegou a correr risco diante da notificação emitida pelo órgão regulador de transportes aquaviários. 

Há décadas em funcionamento sem regulamentação, o píer de Ilhabela passou por melhorias para atender as exigências federais, sob risco de multa de R$ 1 milhão a cada dia que recebesse um transatlântico sem as adequações. “Não tinha referência na carta náutica, por exemplo”, cita o secretário de Turismo, Ricardo Fazzini, a respeito das muitas limitações que provocaram a notificação.

A autorização para receber os turistas veio em novembro, após uma série de melhorias com custo estimado de R$ 900 mil, como a instalação de três novos flutuantes por onde os passageiros desembarcam e passam por um detector de metais antes de pisar em terra firme. 

“Durante 28 anos a prefeitura trabalhou com o píer de forma irregular. Se não fosse regularizado, íamos perder toda a injeção de recursos na economia local”, diz o prefeito de Ilhabela, Márcio Tenório (PMDB), que estima em R$ 60 milhões a movimentação financeira na cidade a partir da chegada dos navios.

Para chegar a Ilhabela é preciso pegar uma balsa em São Sebastião e, durante a alta temporada, as filas chegam a durar horas. Uma vez no arquipélago, a mobilidade também vira uma dor de cabeça ao longo de todo verão já que as praias ficam distantes umas das outras e é preciso fazer o deslocamento de carro. Quando a ilha está cheia, os engarrafamentos são constantes. 

A nova estrutura portuária turística passou pelo primeiro grande teste na primeira semana de dezembro, quando a cidade recebeu um transatlântico com cerca de 6.500 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulação. A chegada da maior embarcação de todas as temporadas, porém, foi antecipada em três dias devido a condições climáticas que obrigaram uma mudança na rota de última hora. 

Para receber o transatlântico, a cidade teve que comprar duas balsas e requisitar três escunas nas vizinhas Ubatuba e São Sebastião para atender as exigências da companhia. 
 

Nos dias de “navio”, como é dito entre os locais, as vagas de estacionamento são quase todas preenchidas por jipes de passeio, e os restaurantes colocam mais mesas e cadeiras na calçada. Até o catador de latinhas muda de rota e troca as praias pela praça central. 

Apesar de toda a expectativa e preparação do comércio local diante da chegada de cada navio, a maioria dos passageiros prefere circular pela orla e tirar fotos no píer com o transatlântico ao fundo a subir nos jipes ou se sentar às mesas dos restaurantes. “Já pagamos caro para viajar de navio, então, economizamos nas paradas”, diz o aposentado Carlos Nascimento, 65, que viajava com a família e tirava selfies com a mulher no píer de Ilhabela. 

As praias próximas ao centro, onde dá para chegar a pé, viram a principal opção de passeio, apesar da bandeira vermelha indicar que estão impróprias para o banho devido à alta concentração de poluentes na água, consequência do tratamento de esgoto deficiente no arquipélago.

CENÁRIO DE SELFIES TEM SUPERLOTAÇÃO DE BARCOS E ACIDENTES

A praia mais frequentada pelos passageiros dos navios que desembarcam em Ilhabela, no litoral norte de SP, se chama Saco da Capela, que fica a poucos metros do píer, e faz sucesso nas fotos de viagem por abrigar vários tipos de barcos, inclusive veleiros, que ficam ancorados em poitas flutuantes e compõem a paisagem praiana.

O cenário das fotos de férias, porém, representa um problema para a administração local. “Ali funciona uma ocupação desordenada de barcos”, diz o secretário de Turismo, Ricardo Fazzini. 

Diante da dificuldade em encontrar vaga em uma marina, e das altas mensalidades cobradas, que partem de R$ 1.500, donos de barcos ancoram no Saco da Capela por ser uma espécie de território livre, abrigado e ainda próximo ao centro. 

Sem controle da quantidade de embarcações que aportam ali, a prefeitura também não fiscaliza práticas essenciais, como descarte de lixo e a exigência da Marinha em manter os barcos ancorados à distância mínima de 200 metros da maré cheia, no limite onde as ondas quebram na areia.

 
Temporada de cruzeiros no Brasil vai de novembro a março
Temporada de cruzeiros no Brasil vai de novembro a março - Folhapress

A Folha esteve no Saco da Capela por dois dias seguidos e presenciou banhistas, inclusive crianças, nadando em meio aos barcos ancorados.

O desrespeito à regra é explicado pela falta de fiscalização e também por questões climáticas, já que há menos incidência de ventos na área abrigada, próximo da areia, do que nos 200 metros adiante em direção a alto-mar, onde os ventos podem chegar a 40 km/h. 

“Churrasco na areia é farofa, mas na lancha é chique. Na alta temporada, o que não falta é churrasqueira em alto mar e, no fim, o lixo é jogado no mar mesmo”, diz o guia turístico José Luiz de Oliveira Júnior, 24. 

A área abrigada tem capacidade para cerca de 150 embarcações que ficam ancoradas em poitas flutuantes. Apesar de caber à Marinha a concessão de uso das poitas a donos de barcos, que é intransferível, é comum a prática de alugar o equipamento em Ilhabela. 

No Saco da Capela, os donos de poitas cobram até R$ 100  por dia no auge do verão —normalmente, cada uma comporta até dois barcos. Na alta temporada, são comuns colisões provocadas pelo alto fluxo de embarcações no canal. 

Para coibir essa prática, a prefeitura promete ao menos desde 2014 construir uma marina pública no local. 

Segundo Fazzini, há um projeto de parceria público-privada para a construção da marina com capacidade para receber até 300 embarcações no Saco da Capela, mas ainda sem data de inauguração prevista.

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