Inspetora da GCM é guardiã das vítimas de violência doméstica na cidade de SP

Programa da Guarda Civil Metropolitana já atendeu 1.232 casos em quatro anos

Ricardo Kotscho
São Paulo

"Quebrar o silêncio é o primeiro passo e o mais importante." Quem dá o conselho a mulheres vítimas de violência é Elza Paulina Souza, 52, negra, mãe e avó, inspetora superintendente da Guarda Civil Metropolitana, responsável por zelar pela aplicação da Lei Maria da Penha em São Paulo.

Após a promulgação da lei, a inspetora notou um aumento, e não a diminuição do número de denúncias, pelo telefone 153 da GCM, colocado à disposição das vítimas. 

No comando de uma equipe de 30 guardas municipais, que deverá dobrar em 2019, Elza atribui este aumento a um fato positivo: as mulheres estão perdendo o medo de denunciar seus algozes, geralmente pessoas do núcleo familiar.

Após uma força-tarefa criada pelo Ministério Público ter recebido centenas de relatos de mulheres que dizem ter sido abusadas pelo médium João de Deus, Elza diz acreditar que mais vítimas de violência criarão coragem para ligar no 153. Além desse número, há também o 180, o disque-denúncia do governo federal.

Em quatro anos, o Programa Guardiã Maria da Penha, que ela coordena, já atendeu a 1.232 casos e fez mais de 40 mil visitas domiciliares para dar proteção a ameaçadas.

No momento, estão sendo atendidas 172 vítimas que foram encaminhadas à GCM pelo Grupo de Enfrentamento à Violência Doméstica (Gevid) do Ministério Público Estadual. Para os casos mais graves, a prefeitura oferece seis abrigos com 20 vagas cada.

Os casos mais comuns são de homens que não se conformam com a separação e continuam importunando e ameaçando as ex-mulheres. Neste ano, a agressão mais violenta envolveu a filha de um libanês, espancada pelo pai por se recusar a casar com o marido que ele escolheu. "Essa moça quase foi a óbito. O pai quebrou os dois braços dela, bateu na cabeça, foi uma violência tremenda", conta Elza.

A vítima agora está numa das três Casas de Proteção mantidas pela prefeitura, onde se encontram 20 outras vítimas. O pai foi preso, mas a inspetora teme que ele possa ser solto a qualquer momento.

O principal objetivo do programa é fiscalizar o cumprimento das medidas de proteção determinadas pela Justiça, para impedir a aproximação de possíveis agressores.

Para executar esse serviço, que atualmente só cobre o centro da cidade e a região sul, Elza conta com apenas quatro viaturas, cada uma com três guardas. Em 2019, com a ampliação da equipe, toda a cidade deverá estar coberta.

De janeiro a outubro deste ano, foram 6.761 visitas domiciliares e rondas por locais onde as mulheres estudam ou trabalham.

Aos novos guardas que estão em treinamento, Elza, também professora de ética na Academia de Formação em Segurança Urbana, ensina a importância de dar bom acolhimento às vítimas e explicar os serviços públicos colocados à disposição delas.

"O importante é dar segurança a essas mulheres para que elas possam denunciar casos de violência de parentes ou vizinhos sem temer uma retaliação. Graças a isso, nós conseguimos prender em flagrante um rapaz que espancava a mãe por não lhe dar dinheiro para comprar drogas."

Defensora do Estatuto do Desarmamento, a inspetora é contra a liberalização do porte de armas como quer a "bancada da bala" na Câmara. 

Como responsável pela campanha de recolhimento de armas promovida pela GCM —só este ano ela já entregou mais de 400 ao Exército— teme que mudanças no estatuto possam aumentar os casos de violência doméstica.

"Dizem que o cidadão de bem precisa ter uma arma para se defender dos bandidos, mas esse é o perigo. Geralmente, os agressores de mulheres parecem pessoas comuns. Mas pode ser qualquer um, que você não imagina, capaz de praticar violência."

Empolgada com seu trabalho, Elza Paulina Souza é dessas pessoas vocacionadas que não poderiam fazer outra coisa na vida. Desde criança, queria ser policial. Filha de lavradores de Marília, no interior paulista, trabalhou na roça quando pequena e andava três quilômetros para ir à escola com as quatro irmãs.

A grande geada de 1973 acabou com a plantação de café e melancia, mantida pelo pai com a ajuda das filhas, no sítio de 21 alqueires, que tiveram de vender a um grande fazendeiro para pagar as dívidas.

Mudaram-se para a cidade e, aos 18 anos, em 1986, Elza foi para São Paulo, com um único objetivo: ser policial. "Não entendo o motivo, sempre sonhei com isso. Fui vetada na Polícia Militar porque era muito nova, mas fiquei sabendo que o prefeito Jânio Quadros estava criando a Guarda Civil Metropolitana... Aí fui aprovada no concurso e fiz parte da primeira turma que se formou. E estou aqui até hoje..."

Com Jânio, as primeiras guardas municipais não podiam ter cabelos longos nem usar calças no uniforme, e trabalhavam desarmadas.

Agora, a mais nova arma de Elza é um aplicativo em que as mulheres ameaçadas são cadastradas e podem acionar o Centro de Controle pelo seu celular para o atendimento de ocorrências em tempo real.

"Isso é fantástico. Com esse 'Waze da segurança', podemos prestar socorro imediato. Funciona como um botão de pânico para aquelas que se sentem em perigo", diz Elza.

Como só há uma delegacia especializada em atendimento às mulheres aberta 24 horas em São Paulo, a nova tecnologia implantada no programa Guardiã Maria da Penha poderá evitar que leve 40 anos para que as vítimas façam suas denúncias, a exemplo do que supostamente aconteceu no caso do médium João de Deus.

Nesta época de festas de fim de ano, Elza sabe que seu trabalho vai aumentar. Por experiência, lembra que é quando os homens costumam beber mais e ficam mais valentes.

Se depender dela, as mulheres de São Paulo terão este ano um Natal mais seguro.​

 

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