Ministério Público denuncia João de Deus sob a acusação de abuso sexual

Crimes são os de violação sexual e estupro de vulnerável; defesa não se manifestou

Estelita Hass Carazzai
Curitiba

O Ministério Público de Goiás apresentou nesta sexta-feira (28) a primeira denúncia contra o médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, preso sob suspeita de abusar sexualmente de mulheres durante atendimentos espirituais em Abadiânia, no interior do estado.

Ele foi denunciado sob acusação de dois crimes de violação sexual mediante fraude e dois estupros de vulneráveis.

Os fatos ocorreram em 2018, segundo a promotora ​Gabriella de Queiroz –entre os meses de abril e outubro.

Mas a denúncia, que foi protocolada na tarde desta sexta e corre em segredo de justiça, contém os testemunhos de 19 mulheres, que relatam situações de abuso sexual ocorridas entre 1975 e 2018.

Dez desses casos estão prescritos, e cinco estão sob investigação. Todas as mulheres, porém, foram listadas como testemunhas.

“São depoimentos críveis, muito homogêneos. Grande parte das vítimas consegue provar que esteve no local, que passou por atendimento”, afirmou Queiroz. “Há laudos de profissionais, há pessoas que acompanharam as visitas e ouviram desabafos.”

A Justiça de Abadiânia ainda irá decidir se aceita ou não a denúncia. Caso o médium seja condenado pelos quatro crimes narrados, a pena pode chegar a 42 anos.

Em depoimento à Promotoria, o médium negou que tivesse praticado qualquer tipo de crime e afirmou não se lembrar das mulheres que o acusam. ​

Até agora, foram colhidos pelos promotores cerca de cem depoimentos formais de mulheres que afirmam terem sofrido abuso sexual pelo médium. 

Na semana passada, ele foi indiciado pela polícia em relação a um caso específico, de uma mulher de 40 anos, que disse ter sido forçada a massagear a sua barriga enquanto ele estava com o pênis para fora.

Segundo a promotoria, novas denúncias devem ser apresentadas nas próximas semanas, já que dezenas de outros casos, “até mais fortes”, de acordo com Queiroz, continuam sob investigação.

No total, cerca de 260 potenciais vítimas entraram em contato com o Ministério Público até agora. “É um quadro de horror”, afirmou a promotora.

Segundo ela, o Ministério Público entende que o silêncio das denunciantes durante tantos anos é natural.
“A vítima se sente culpada, sente medo, vergonha. Se pensarmos que hoje é difícil [denunciar violência sexual], imagine em 1975. Era um contexto de ainda mais medo, mais receio. Sobretudo em face de uma figura com tamanho poderio.”

O médium está detido preventivamente desde o último dia 16, quando se entregou à polícia.

Nesta quinta (27), a Justiça decretou o bloqueio de R$ 50 milhões de João de Deus, para fins de reparação de danos de potenciais vítimas.

A defesa de João de Deus ainda não se manifestou sobre a denúncia.

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