Tentativa de assalto deixa bandidos e reféns mortos no interior do Ceará

Ao menos 14 pessoas morreram em tiroteio no município de Milagres

Marcel Rizzo João Valadares
Fortaleza e Recife

Uma tentativa de assalto a duas agências bancárias no município de Milagres (CE), a 480 km de Fortaleza, deixou nesta sexta-feira (7) ao menos 14 mortos —6 reféns e 8 suspeitos— após confronto de assaltantes com a polícia.

O tiroteio se estendeu por mais de 20 minutos, por volta das 2h, quando cerca de 30 homens armados foram abordados por policiais ao se aproximarem de agências do Banco do Brasil e do Bradesco.

O grupo havia roubado um caminhão —que foi deixado atravessado na BR-116—, abordado carros no caminho e levado passageiros como reféns.

O prefeito de Milagres, Lielson Landim (PDT), disse que, em meio à troca de tiros com a polícia, os reféns foram mortos pelos próprios assaltantes. As circunstâncias, no entanto, ainda não estão claras.

Segundo a polícia, cinco suspeitos morreram no tiroteio quando tentavam acessar as agências, dois foram baleados e morreram no hospital e um oitavo morreu após fugir, em confronto em Barro, a 24 km.

Nos últimos três meses, episódios semelhantes deixaram um saldo de ao menos 27 suspeitos mortos em confronto com a polícia após assaltos a bancos no Maranhão, Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Sul.Dos seis reféns mortos no ataque em Milagres, cinco eram da mesma família.

O empresário João Batista Magalhães, 46, havia deixado Serra Talhada, onde vive em Pernambuco, na noite de quinta (6), acompanhado do filho de 14 anos para buscar familiares no aeroporto de Juazeiro de Norte, já no Ceará. Eles chegavam de São Paulo.

No retorno, foram abordados pelos bandidos em um acesso à BR-116, em Milagres, e viraram reféns. Estavam no carro, além de Magalhães e seu filho, sua cunhada, seu concunhado e o filho do casal, de 10 anos. Todos morreram.

O familiar de uma das vítimas disse que outros reféns conseguiram sobreviver ao ataque. Um deles teria se fingido de morto no tiroteio.

"Ele foi sequestrado junto com a sexta vítima, uma mulher. Foram dois carros sequestrados, o da minha família e o dessas outras pessoas. Esse homem se fingiu de morto, mas a mulher morreu", afirmou à Folha João Daniel Neto, primo de Magalhães. "Ainda não recebemos informações da polícia sobre como teriam ocorrido as mortes."  

O pai do sobrevivente e da mulher que morreu também estava em um dos carros, mas acabou liberado pelos bandidos antes da chegada da polícia porque passou mal.

O titular da pasta, André Costa, afirmou que a ação policial será investigada, mas que não se pode fazer um julgamento antecipado.

"Houve uma troca de tiros. A informação preliminar que recebemos é que um dos criminosos presos acabou dizendo que matou pessoas que estavam no local e não eram da quadrilha. Mas toda informação é insuficiente", disse Costa.

Segundo ele, foram presos três suspeitos —dois de manhã e um terceiro à tarde.

O governo Camilo Santana (PT) disse que a ação policial teve a participação de polícias de quatro estados, Sergipe, Alagoas, Bahia e Ceará —inicialmente, o governo cearense havia informado que também houve participação da polícia pernambucana.

O serviço de inteligência integrado havia identificado que haveria um assalto a banco no sul do Ceará, nas cidades de Milagres ou Missão Velha.

“O fato é que estavam preparados para assaltar dois bancos e não conseguiram assaltar”, afirmou Santana.

O governador do Ceará disse também que “é estranho um refém de madrugada no banco”, mas que “vamos aguardar essa investigação”.Foram apreendidos explosivos, uma pistola 9 mm, um revólver calibre 38, uma arma calibre 12 e três veículos.

A Prefeitura de Milagres fechou órgãos públicos e suspendeu as aulas nesta sexta.

Ataques a bancos se tornaram rotina em cidades do interior do Nordeste e com relatos de confrontos entre policiais e assaltantes e mortes.

No Ceará, segundo o Sindicato dos Bancários, foram 49 ataques a bancos em 2018, já contabilizado os desta sexta: o de Milagres e um outro em Itatira, no sertão central, sem mortos ou feridos.

Na Bahia, como mostrou reportagem da Folha em julho, há cidades ficando sem dinheiro por causa do ataque a bancos, em ações que são chamadas de “novo cangaço”.

“Existe uma certa sequência desses tipos de delitos, assaltos a bancos, sempre cometidos com as mesmas estratégias. Os alvos são cidades em que na avaliação desses bandidos não há policiamento adequado. A polícia tem que estar cada vez mais preparada. Podem ocorrer mortes, mas a função da polícia tem que ser preservar a vida”, disse o sociólogo César Barreira, coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da UFC (Universidade Federal do Ceará).

A segurança pública foi tema importante da eleição presidencial deste ano, principalmente porque o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), defende força policial nas ações e mudanças na legislação para que policiais não tenham problemas na Justiça se ocorrerem mortes em confrontos. Nesta semana, Bolsonaro elogiou o trabalho de policiais que mataram um assaltante que fazia uma idosa de refém em Valença, no interior do Rio.

“Esses discursos deixam os policiais muito mais à vontade. Dá uma certa legitimidade a essas ações, e elas não podem ser legitimadas. Ela [morte em confrontos] tem que ser averiguada, com imparcialidade”, disse Barreira.

Segundo o REE-F (Ranking de Eficiência dos Estados - Folha), na média do país, a segurança aparece como o principal problema do Ceará. Em nono lugar no levantamento, homicídios e outros episódios de violência puxam os indicadores do estado para baixo.

A taxa de mortes violentas intencionais no Brasil atingiu 30,8 para cada 100 mil habitantes no ano passado, quando morreram dessa forma 63.880 pessoas em todo o país, um avanço de 3% em relação às registradas em 2016. Isso representa um total de 175 assassinatos por dia no país. O índice de 2017 foi o maior da série histórica, iniciada em 2013.

No ano passado, disparou também a quantidade de mortos pela polícia. Foram 5.144 em 2017, média de 14 mortos por dia, um avanço de 20% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, o número de policiais mortos recuou 5%. Foram 367 no ano passado.

Todos esses dados do panorama da violência em 2017 aparecem em levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organização de pesquisadores da área e que compila estatísticas de secretarias estaduais de segurança e das polícias Civil e Militar.

O critério para a soma de mortes violentas intencionais inclui homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte, mortes de policiais em confrontos e mortes decorrentes de intervenções policiais.

O estado mais violento é o Rio Grande do Norte, com 68 mortes por 100 mil pessoas, mais que o dobro da média nacional. Depois estão Acre (63,9) e Ceará (59,1), ambos na rota do tráfico de drogas.

Outros casos em que suspeitos de assalto a banco foram mortos

Maranhão, 4.dez‚ Três pessoas foram mortas pela polícia e ao menos outras dez foram presas em Santa Luzia do Paruá. Elas eram suspeitas pelo assalto a uma agência em Bacabal no dia 25 de novembro 

Rio Grande do Sul, 3.dez‚ Seis suspeitos pelo assalto de dois bancos e uma lotérica foram mortos pela polícia em Ibiraiaras. No roubo, o gerente de uma das agências, que havia sido feito refém, foi morto. Outras três pessoas foram presas

Alagoas, 8.nov‚ Onze suspeitos de assaltar agências bancárias foram mortos em Santana do Ipanema. A Polícia Civil disse que os agentes foram recebidos com tiros de fuzil, mas nenhum policial sofreu ferimento grave. Segundo o delegado responsável, os suspeitos "dispararam sem nenhuma técnica" 

Sergipe, 4.set‚ Sete homens morreram e uma mulher foi presa em Japaratuba. Eles eram suspeitos de assaltar uma agência cerca de um mês antes

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