Veja dicas que podem ajudar a identificar casos de assédio sexual por religiosos

Associação de vítimas sugere estratégias para enfrentar a situação

Mulher vítima de estupro - Ricardo Borges/Folhapress
Marina Estarque
São Paulo

O processo de reconhecer e enfrentar o abuso sexual pode consumir muito tempo e energia. Nesse período, vítimas podem ficar completamente esgotadas, irritadiças e sofrer com mudanças bruscas de humor.

A associação norte-americana Survivors Network of Those Abused by Priests - Snap (Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres, na sigla em inglês) compilou dicas de quem já passou por isso e o que os ajudou no processo. Segundo a rede, como cada vítima é única, não há certo e errado, ou “conselhos”. É preciso ver o que funciona para cada um.

 

O que torna um adulto vulnerável ao abuso sexual no meio religioso:

  • Desejo de pertencimento, de conexão e de ter um mentor espiritual.
  • A cultura da submissão, especialmente para mulheres.
  • Circunstâncias da vida, como uma perda, um período de transição.
  • A crença da vítima de que ela/ele é mau ou um pecador.

Estratégias comuns de abusadores no meio religioso:

  • Isolam e atraem a vítima: Criam oportunidades para estarem sozinhos com as vítimas, fazem com que se sinta especial com elogios e reconhecimento, discutem assuntos conjugais, criticam amigos e familiares.
  • Aproximação: Elogiam de forma sedutora, tocam a vítima de maneiras sexuais, pedem que a pessoa conte informações sobre parceiros, namoros e história sexual.
  • Valorizam a submissão: Ensinam para a vítima a necessidade e a virtude de obedecer, dizem que a submissão vai aproximá-la de Deus, afirmam que a recusa em se submeter é um pecado e uma rebelião.
  • Alimentam o medo: Caso a vítima tente se defender ou denunciar o assédio, abusadores ameaçam com punição divina ou espiritual, com expulsão da comunidade de fiéis, com a rejeição e o afastamento de familiares e amigos. Dizem que a vítima será considerada sedutora ou pecaminosa e que será responsável pelo fim da carreira do líder religioso.
  • Incentivam o silêncio: Mostram arrependimento e pedem perdão, tentam provocar vergonha e culpa (“foi consensual, você que quis, você gostou”), desencorajam a vítima a denunciar (“ninguém vai acreditar, vão dizer que você é louca”).

O que as vítimas podem fazer para lidar com a situação:

  • Reconheça a sua coragem: Requer coragem admitir, até para si mesmo, que o abuso sexual ocorreu.
  • Não se sinta sozinha/o: As vítimas costumam pensar que são as únicas a terem sido abusadas, mas raramente há apenas uma vítima, segundo a SNAP.
  • Evite fazer a denúncia para a própria instituição onde ocorreu o abuso. Se optar por isso, não vá sozinho/a e registre as reuniões.
  • Busque ajuda: Converse com amigos ou familiares de confiança, procure ajuda profissional ou grupos de apoio de vítimas de abuso.
  • Conheça os seus direitos: Informe-se sobre leis, direitos e procedimentos em casos de abuso sexual. 
  • Cada vítima é única: A experiência do abuso pode até ser similar, mas os efeitos e o processo de superação variam muito de pessoa para pessoa.
  • Não sinta culpa: Não importa o que a vítima fez ou não fez para impedir o abuso, se pareceu bom ou ruim na hora, se o abusador comprou presentes, se a vítima gostava da companhia ou se foi alertada a ficar longe do abusador. A responsabilidade pelo ato, criminoso, é apenas do abusador.

O que pode ajudar a vítima a se sentir melhor:

  • Cuidar da saúde física e mental: Muitas vítimas desenvolvem vícios, problemas de saúde ou psicológicos, como uso excessivo de álcool e drogas, distúrbios alimentares e do sono, dificuldade de se relacionar e ter intimidade com parceiros, problemas digestivos, depressão, entre outros. Caso a pessoa tenha qualquer um desses problemas, é recomendável buscar ajuda médica e de terapeutas. Alguns mecanismos podem ter ajudado a pessoa a suportar o trauma do abuso na época, mas não são saudáveis. Cuidar desses problemas ajuda a pessoa a enfrentar e se liberar dos efeitos do abuso. 
  • Mantenha as pessoas próximas cientes: É importante que parceiros, amigos e pessoas próximas saibam o que a vítima está passando, para que possam apoiar e compreender melhor o desgaste e a gangorra emocional. 
  • Reserve tempo para “sentir a dor”: Separe momentos após sessões com terapeutas, grupos de apoio ou ao longo do dia para digerir as emoções, que podem surgir a qualquer momento. Ao mesmo tempo, não é recomendado parar totalmente os hábitos diários. “A vida não pode parar enquanto nos curamos do abuso”, afirma a organização.
  • Faça exercícios: Fazer qualquer coisa para movimentar o corpo, como andar de bicicleta ou caminhar, ajuda a manter o bem-estar, além de ser uma boa válvula de escape para a raiva, culpa e vergonha.
  • Descanse: Lidar com as consequências do abuso pode ser exaustivo. Tire tempo para descansar e não se sinta culpado por isso.
  • Crie oportunidades para rir e relaxar: Muitas vítimas percebem que, durante o processo de denúncia ou enfrentamento do abuso, pararam de rir ou de achar coisas engraçadas. Para muitos, ver filmes de comédia, por exemplo, ou criar o espaço necessário para o riso ajudava a se distrair com assuntos leves e descarregar emoções. Também pode ajudar fazer atividades relaxantes, como tomar um chá, um longo banho ou uma massagem.
  • Estabeleça limites: Pode ser útil para a vítima colocar limites sobre como e quando vai falar sobre o abuso sofrido, se só vai relatar para pessoas íntimas ou por no máximo meia hora de cada vez, por exemplo. Isso ajuda a evitar que a vítima compartilhe mais do que deseja ou ignore suas necessidades. Estabelecer limites e respeitá-los também pode dar uma sensação positiva de controle da própria vida. Durante o abuso, muitas vítimas se sentem impotentes, então retomar esse poder pode ser parte do processo de superação.
  • Faça algo artístico ou escreva um diário: Desenhar ou escrever, por exemplo, podem ajudar a liberar emoções represadas e ser um primeiro passo para romper o sigilo sobre o abuso.
  • Vai melhorar: Pode demorar anos para lidar com as consequências do abuso, mas, aos poucos, a vítima tende a se sentir melhor.
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