Vereador citado em caso Marielle pede federalização das investigações

Siciliano afirmou ser um bode expiatório no caso

Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

O vereador Marcello Siciliano (PHS) pediu na manhã deste sábado (15) a federalização das investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, ocorrido em maio do ano passado e até agora sem solução.

Siciliano foi citado por uma testemunha do inquérito que apura o crime como sendo um dos possíveis mandantes do assassinato.

Em abril, o jornal O Globo revelou que um ex-integrante de uma milícia que atua na zona oeste se apresentou espontaneamente à Polícia Federal e prestou depoimento em que implicou no crime Siciliano e o ex-policial militar e miliciano Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curicica, atualmente preso em uma penitenciária federal por crime sem relação com a morte da vereadora.

Tanto Siciliano quanto Curicia negam as acusações. O vereador novamente negou que conheça Curicica, mas admitiu que pode ter encontrado o miliciano durante seu trabalho como vereador que costuma visitar bairros da zona oeste, sua base eleitoral.

Curicica chegou a dizer, em depoimento ao Ministério Público Federal, que a Delegacia de Homicídios, a cargo das investigações, estava transformando-o em bode expiatório.

Disse ainda que a acusação contra si seria parte de um esquema da delegacia para evitar investigar grupos de extermínio ligados ao jogo do bicho no Rio.

Neste sábado (15), Siciliano afirmou também ser um bode expiatório no caso e pediu que as investigações fossem transferidas para órgãos federais.

Atualmente, o inquérito corre sob sigilo na estrutura criminal do Estado, a despeito de o Rio estar sob uma intervenção federal na Segurança Pública desde fevereiro.

A pedido da PGR e sob orientação do ministro da Segurança Pública, Raul Jungman, a Polícia Federal investiga uma parte do caso, já que surgiram nos últimos meses suspeitas de que a morte da vereadora poderia ter ligação com disputas políticas envolvendo deputados estaduais do Rio.

A principal linha de investigação da Polícia Civil do Rio até o momento, contudo, é que Marielle teria sido morta porque teria interferido em interesses de milicianos no segmento de regularização fundiária em bairros pobres da zona oeste, reduto do principal grupo paramilitar do Rio.

Foi essa suspeita que levou a polícia a cumprir mandado de busca e apreensão na última sexta-feira em endereços ligados a Siciliano no Rio. Antes de se eleger vereador, em 2016, Siciliano atuou como empresário na zona oeste, nos setores imobiliário e automotivo.

Segundo o vereador, a operação de sexta tinha como objetivo encontrar supostas ligações de grupos grileiros com a morte de Marielle, além de implicá-lo no caso.

A operação da última sexta foi realizada pela delegacia de meio ambiente e não pela Delegacia de Homicídios, responsável pela apuração do crime.

Ainda segundo o vereador, a operação foi uma manobra da Delegacia de Homicídios para checar informações sem que Siciliano fosse incluído formalmente no rol de suspeitos do caso-- a sua inclusão permitiria que sua defesa pudesse ser constituída nos autos e seus advogados tivessem acesso ao inquérito.

"Eles me incluíram no primeiro inquérito como testemunha justamente para não termos acesso às informações da investigação. Agora, sete meses depois da denúncia da testemunha contra mim, eles voltam a me investigar, por outro motivo sem sentido, numa operação midiática, usando artifício para que eu novamente não tenha acesso ao inquérito da Marielle, que está sob sigilo", disse ele, durante coletiva de imprensa convocada por sua assessoria, na Barra da Tijuca, zona oeste, na manhã deste sábado.

Siciliano negou que tenha atuado em grilagem de terras em sua vida profissional. Disse apenas que em 1998 "fracionou um lote" na região de Vargem Grande, zona oeste, onde teria sido construído um condomínio de classe média alta em que morou com a família por anos. O terreno, segundo ele, já estaria regularizado nos dias de hoje.

O vereador voltou a negar que seria integrante de milícia. Ele confirmou, contudo, que fez negócios no passado com um empresário de apelido Zinho, dono de uma empresa de terraplanagem e que é irmão do miliciano Wellington da Silva Braga, conhecido como Ecko, chefe da milícia Liga da Justiça, umas das primeiras da zona oeste e hoje uma das maiores do Estado do Rio.

O vereador pediu a federalização das investigações e o fim do sigilo do inquérito. Segundo ele, a DH não estaria mais em condições de fazer uma apuração isenta dos fatos, principalmente depois das denúncias feitas por Curicica, de que a Polícia Civil estaria poupando grupos de extermínio na investigação.

Ele também afirmou que ele estaria sendo incriminado porque o comando da intervenção federal na segurança pública do Rio, que termina 31 de dezembro, estaria interessada em finalizar o caso a qualquer custo antes do final do prazo da atuação no Rio.

"Eu quero ser investigado por pessoas acima de qualquer suspeita", disse ele, que afirmou temer por sua vida. Seus advogados cogitam fazer um pedido formal de proteção às autoridades locais.

Em tom que variou entre emocionado e indignado, Siciliano pediu apoio aos jornalistas presentes para não seja incriminado injustamente no caso. Ele fez apelos inclusive a órgãos defensores dos direitos humanos, principal bandeira de Marielle, como a ONG Anistia Internacional.

"Não deixem que eu seja um bode expiatório. Quem gosta da Marielle que apoie a federalização da investigação. Eu queria que tornassem pública a investigação. Aí acabava esse problema", afirmou.

Formalmente, não caberia à defesa fazer esse tipo de pedido. A federalização só poderia ocorrer em caso de pedido do Ministério Público do Estado ou do Executivo estadual, que controla as polícias.

Siciliano disse que teme pela sua vida porque acredita que pode ser morto em circunstâncias não esclarecidas e os responsáveis pela investigação do caso concluírem que houve uma queima de arquivo por parte de criminosos.​

O temor, segundo ele, seria a Polícia Civil, com base nessa versão, concluir que ele seria o responsável pela morte da vereadora.

"Estão querendo matar dois vereadores com o mesmo tiro. Se eu apareço morto, vão dizer que foi queima de arquivo e cravar que quem matou a Marielle fui eu. Simples assim", disse ele, que repetiu em um segundo momento frase semelhante. "Querem me matar com a bala que mataram a Marielle", disse.

Siciliano falou por cerca de 30 minutos e respondeu a poucas perguntas dos jornalistas. Ele confirmou que é rival político da família Brazão, cujos integrantes ganharam notoriedade por se elegerem a cargos no legislativo do Rio e serem suspeitos de terem relação com grupos milicianos na zona oeste.

Domingos Brazão já foi deputado estadual e atualmente é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Seu irmão, Chiquinho, é vereador do Rio. Siciliano é hoje influente na região da Gardênia Azul, bairro pobre da zona oeste, onde os Brazão reinavam absolutos até pouco tempo.

Uma das linhas de investigação do caso Marielle é que ela teria sido morta no contexto dessa disputa, já que o Siciliano tinha uma relação aparentemente cordial e de amizade com a colega de câmara que mais tarde seria morta a tiros em uma.emboscada no centro do Rio, em 14 de março.

A testemunha que implicou Siciliano no caso tem relação com a família Brazão, segundo reportagem do portal G1. Segundo essa linha de investigação, Marielle teria sido morta e o vereador estaria sendo vítima de uma jogada para incriminá-lo, algo que Siciliano diz não ser plausível.

"Essa disputa já gerou discussão entre nós, mas difícil acreditar que isso foi motivo para me 'embuchar' na história", disse ele.

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