Vigilância Sanitária de Goiás interdita farmácia de João de Deus

Segundo fiscais da ação, estabelecimento tinha produção em escala industrial que não estava liberada

João Pedro Pitombo
Salvador

O governo de Goiás interditou cautelarmente na última sexta-feira (21) a farmácia da Casa Dom Inácio de Loyola, principal local de atendimento do médium João de Deus em Abadiânia (90 km) de Goiânia.

A interdição foi realizada por fiscais da Vigilância Sanitária de Produtos e de Serviços de Saúde, órgão ligado à secretaria de Saúde de Goiás, e pela Polícia Civil de Goiás após uma denúncia anônima.

A farmácia possui alvará sanitário exclusivamente para manipulação e comercialização de fitoterápicos – medicamento produzido exclusivamente a partir de plantas. Contudo, segundo os fiscais que participaram da ação, o estabelecimento tinha uma produção em escala industrial não estava liberada.

Também foram coletadas pelos fiscais amostras de medicamentos e de água mineral vendida como fluidificada. No espiritismo, chama-se de fluidificada a água que recebe fluidos curadores por meio do passe magnético. 

Os produtos foram encaminhados ao Laboratório de Saúde Pública Dr. Geovanni Cysneiros para que sejam analisados – os resultados saem em até um mês.

O médium João de Deus foi indiciado pela Polícia Civil de Goiás sob suspeita de violação sexual mediante fraude. Ele é alvo de outros oito inquéritos policiais que investigam supostos abusos sexuais.

Os crimes teriam sido praticados durante atendimentos individualizados e em locais restritos na Casa Dom Inácio de Loyola, local onde o médium atendia em Abadiânia.

Também na última sexta-feira, a polícia encontrou R$ 1,2 milhão em espécie, além de uma revólver e pedras supostamente preciosas em endereços ligados a João de Deus.

O CASO

Os casos começaram a tornar-se público após 13 mulheres relatarem as denúncias no sábado (8) durante o programa Conversa com Bial, da TV Globo, e ao jornal O Globo.

Na segunda (10), Aline Saleh, 29 contou sua história à Folha: "Quem tem de sentir vergonha é ele, e não eu". Ela diz que, em 2013, esteve na casa e que foi levada para um banheiro, posta de costas e que João de Deus colocou a mão dela em seu pênis.

Em comum, a maioria das mulheres diz que recebeu um aviso de procurar o médium em seu escritório ao fim das sessões em que ele atende aos fiéis.

No local, segundo as vítimas, João de Deus dizia que elas precisavam de uma “limpeza espiritual” antes de abusá-las sexualmente. Entre as vítimas estariam mulheres adultas, crianças e adolescentes.

Na sexta (14), a Justiça decretou a prisão preventiva do médium. Ele ficou escondido num sítio na zona rural de Abadiânia até se entregar na tarde de domingo (16) e ser levado para a prisão em Aparecida de Goiânia.

O momento da apresentação foi registrado com exclusividade pela colunista Mônica Bergamo, da Folha.

No depoimento que prestou à polícia, o médium negou qualquer tipo de culpa nos abusos sexuais dos quais é suspeito, e sua defesa tentou desqualificar as denunciantes. "Ele não admite [envolvimento]. Apresenta suas versões e cabe à polícia provar", afirmou o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, que acompanhou a oitiva.

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