Descrição de chapéu Folha Verão

Aposentado e fiscais duelam por micareta aquática em Salvador

DJ instalou caixa de som em caiaque e levou axé para o mar; prefeitura diz que ato é irregular

João Pedro Pitombo
Salvador

​Os seculares festejos de largo legaram a tradição na Bahia: a fórmula música mais gente reunida não demora a acabar em festa. E se esta acontece mais de uma vez, tão logo entra no calendário informal de eventos da cidade.

Esta era ideia do aposentado Mário César Ramos, 62, quando no dia 2 de janeiro entrou nas águas da praia do Porto da Barra, dentro de seu caiaque.

Na popa da embarcação, uma caixa de som de meio metro de altura transformava em decibéis sucessos do axé e pagode baianos.

Não tardou e uma multidão cercou o caiaque, que como um trio elétrico percorreu o trajeto entre os fortes de São Diogo e Santa Maria.

“É só uma brincadeira, queria botar um som para o pessoal curtir. Mas a turma gostou da ideia e isso aqui acabou virando um Carnaval”, afirma Mário César, que ficou conhecido como DJ Maroca.

Morador do bairro da Barra, ele já costumava praticar remo com seu caiaque nas calmas águas do Porto da Barra, uma das praias mais icônicas de Salvador. Mas resolveu adaptá-lo a outra de suas paixões: a música.

A ideia surgiu depois de seu primeiro embate com a Prefeitura de Salvador. Ele costumava andar com uma caixa de som pelos calçadões da orla, mas teve o equipamento apreendido por fiscais municipais.

“Eu pensei: vou ouvir meu som no mar porque de lá ninguém me tira”, contou Mário. Ele investiu R$ 7.000 entre caiaque e equipamentos de som e construiu a sua engenhoca com potentes caixas de som.

Há dois anos, no período pré-carnavalesco, reuniu a família e amigos e fez a estreia da embarcação com a “Lavagem do Caiaque Elétrico”. Fizeram camisas personalizadas e desfilaram pela praia.

Repetiu a empreitada no ano passado. Em 2019, contudo, resolveu não esperar o Carnaval. Com a praia lotada, desfilou com seu caiaque em uma espécie de uma micareta aquática e ganhou a internet.

Com o sucesso da empreitada, fez a convocação nas redes sociais: na sexta-feira (5), faria uma nova rodada de festa.

Os termômetros marcavam 32ºC. No entorno da praia, já estava armada a estrutura informal para festa. Vendedores de cerveja estavam a postos no calçadão e banhistas vieram de outros bairros da cidade para conferir a micareta no mar. Equipes de emissoras de televisão locais registravam cada detalhe.

Mas uma equipe de fiscais da Secretaria Municipal de Ordem Pública já estava no local para impedir a festa.

Houve um princípio de bate-boca e instaurou-se uma cena do que poderia ser chamado surrealismo baiano.

De um lado, fiscais uniformizados bloqueavam a rampa de acesso ao mar. Do outro, DJ Maroca e foliões-banhistas, entre cervejas, concediam entrevistas, indignados. Todos torrando embaixo de um sol inclemente.

Teve quem ensaiasse um protesto ou pregasse uma resistência pacífica, no melhor estilo Mahatma Gandhi: DJ Maroca iria ao mar sem sua caixa de som e seria ungido pelos foliões, cantando a plenos pulmões. Ele mesmo abortou a ideia: “Aí não tem graça”.

Teve também quem viu os fiscais e respirou aliviado. “Uma praia como o Porto da Barra, com tantos turistas, não pode ser essa esculhambação”, disse uma banhista, moradora da Barra.

Em nota, a prefeitura informou que, caso quisesse fazer um evento em área pública, ele deveria pagar as taxas e pedir autorização na Central de Licenciamento de Eventos.

“Prefiro ser criticado por impedir a realização de um evento irregular, que coloca em risco a vida das pessoas, do que ser culpabilizado depois por uma ocorrência mais grave”, afirmou o secretário de Ordem Pública, Marcus Passos.

Ao saber da posição da prefeitura, DJ Maroca fez troça: “E quem disse que vou fazer algum evento? Só quero passear com meu caiaque e ouvir meu som”.

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