Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Parentes de desaparecidos se desesperam com a falta de notícias em Brumadinho

William busca a irmã e viu casas de seu bairro desaparecerem no amontoado de lama

Carolina Linhares
Brumadinho (MG)

“Eu só penso ‘onde está minha irmã’”, diz William Martins, 18. Há oito dias, a irmã, Camila Silva, 16, começou seu primeiro emprego na Pousada Nova Estância, engolida pela lama do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG).

Segundo o Corpo de Bombeiros, o rompimento deixou ao menos nove mortos e aproximadamente 300 desaparecidos.

Martins, que é bombeiro civil, resolveu buscá-la por conta própria na tarde de sexta-feira (25), após saber do rompimento. Tentando acesso à pousada, chegou até a área da Vale, fardado, e foi barrado por um policial militar. “Eu assumo a responsabilidade sobre mim mesmo”, disse, e deixaram-no passar.

Deu de cara com um grupo de bombeiros voltando do local –já não era seguro fazer buscas a pé, somente de helicóptero. Martins teve que sair também. 

O bairro onde Martins mora com a irmã mais velha também foi atingido. Na rua dele, duas casas foram destruídas. Na rua adiante, foram doze.

A Folha esteve no local, ainda não isolado pelas autoridades. Em uma das casas, a lama parou na porta, mas as paredes racharam. Em outra, o estrago foi na garagem, com um Fiat Palio arrastado. Mas o amontoado de telhas, madeira e uma antena de TV a cabo evidenciam que casas inteiras desapareceram.

Euzébio Francisco Pedrosa, 75, foi um dos que teve uma casa destruída. Ele alugava o imóvel e mora logo ao lado, onde a lama chegou no quintal.

O aposentado conta que todos os vizinhos do bairro Parque da Cachoeira escaparam a tempo, mas foi por pouco. "Ali é a sirene que era para ter tocado, tem sirene coisa nenhuma", aponta.

"Escutei o barulho, subi para a parte alta com a minha família, voltei depois de 20 minutos e já estava assim."

Martins também foi para a parte mais alta do bairro com a família. Desde então, peregrina sem notícias. Todos os acessos à pousada estão cercados de lama. De madrugada, num centro social da Vale em Brumadinho, que atende crianças da cidade com atividades no contraturno, mas foi transformado em centro de apoio da tragédia, ele desaba.

Grita com os funcionários da empresa e se desespera: “vocês estão matando a gente por dentro”.

A reclamação é endossada por outros parentes, revoltados por terem esperado uma nova lista de sobreviventes por horas somente para receber a mesma lista que já circulava à tarde. “Não tem informação mínima. Não tem lista de desaparecidos e não tem informação de onde estão as pessoas resgatadas”, diz Thais Boaventura, 31.

“Se fosse uma empresa fundo de quintal, mas é uma empresa com estrutura”, completa. Boaventura saiu de Belo Horizonte com a família atrás do marido da prima, Warley Moreira, 39, que é funcionário da Vale há mais de dez anos.

Passou por dois endereços em Brumadinho até ser orientada a buscar o centro de apoio. “E aqui também só tem informação desencontrada.”

A mãe de Moreira se anima ao vê-la conversando com a reportagem, acha que chegaram novas informações sobre o filho. “Ela vai ajudar?”, questiona. “Ela é repórter”, responde Boaventura. “Ah não!” e desaba no choro.

“Eu acho que a Vale sabe o tamanho do problema e não vai falar. Não dá para confiar em informação nenhuma, estamos nos informando por um senhor que estava a 200 metros da barragem e escapou. Pelo cargo dele, ele sabe mais ou menos quem estava no refeitório, no escritório”, diz Tiago Silva, 34.

Ele busca o irmão, Samuel Silva, 36, cuja última visualização no WhatsApp foi às 12h22.

São 2h30 da madrugada. Viaturas e ambulâncias transitam em Brumadinho. Um helicóptero decola das proximidades. Do centro de apoio, parte mais um ônibus da Vale levando atingidos para hotéis. São pessoas que tiveram a moradia destruída ou estão em área de risco. Todas foram cadastradas pela Defesa Civil.

Maria Aparecida Santos, 44, estava esquentando o almoço em sua casa no Córrego do Feijão, um dos locais mais atingidos. Ouviu as pilastras de um pontilhão se rompendo e catou a filha: “a Vale estourou lá em cima”.

Foi saindo de casa com a lama atrás. Não sobrou nada. A menina de 9 anos e o marido entram com ela no ônibus. Não são os últimos –novas famílias ainda chegam ao centro de apoio para cadastro e abrigo.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.