Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Em centro de apoio em Brumadinho, voluntários oferecem até energia positiva

Local organizado pela Vale reúne enfermeiros, religiosos e funcionários da companhia

Carolina Linhares
Brumadinho (MG)

​Usando boinas, um grupo de seis pessoas posicionou 12 cadeiras nos fundos do local que serve de centro de apoio da Vale aos familiares e atingidos pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG).

Ali ofereciam “energia positiva” a quem quisesse sentar em frente a um deles. O grupo usa a técnica japonesa sukyo mahikari e veio de Belo Horizonte. “A ideia é transmitir essa luz para quem quiser receber”, diz uma das voluntárias. Cada atendimento durava cerca de dez minutos.

O centro de apoio da Vale recebe dezenas de voluntários desde sexta (25), quando a barragem da Mina do Córrego do Feijão rompeu, espalhando lama até o rio Paraopeba e matando ao menos 58 pessoas.

 

Identificados com coletes amarelos, os voluntários se dividem entre apoio psicológico às famílias, cadastro dos atingidos, separação das doações recebidas, atendimento médico, gestão do refeitório e também detêm as listas de desaparecidos e encontrados para consulta —segundo a Vale, são cerca de 150 voluntários por dia.

Parte deles, porém, é de funcionários da empresa, que foram convocados para o atendimento no local. 

Segundo uma dessas funcionárias, eles não podem dar entrevista. Mesmo dois voluntários sem relação com a empresa não quiseram falar com a reportagem. Um deles consultou a coordenação dos voluntários e foi orientado a não dar entrevista. A companhia informa que centraliza a comunicação com a imprensa para evitar a circulação de informações incorretas.

Todos os voluntários que chegam ao centro de apoio oferecendo serviço são cadastrados pela companhia. Uma enfermeira de São Paulo disse, porém, que seu cadastro foi perdido e ela não estava conseguindo fazer um novo.

“Há um desencontro de informações, não está sendo como deveria”, diz Anita dos Santos, 64. A enfermeira, que teve experiência como voluntária na guerra do Afeganistão, diz que o trabalho no centro de apoio é mais de “dar o ombro e chorar junto” do que de atendimento médico.

Um enfermeiro voluntário de Betim, Fabrício Natalino de Brito, 31, diz que a tarefa é “se colocar no lugar do outro”. “A gente se sente impotente por não conseguir dar um feedback positivo às famílias, mas estamos realizando o que está ao alcance, a arte do cuidado.”

A Cruz Vermelha também mobilizou 30 pessoas em Brumadinho —outras 50 estão a postos se for necessário. 

Os voluntários ajudaram com postos de atendimento na cidade, recepção de donativos e até se enfiando na lama com os bombeiros nos resgates nas áreas atingidas. Foi a Cruz Vermelha que estruturou as salas de atendimento médico e psicológico no centro de apoio da Vale, segundo Ricardo Márcio Oliveira, 42, membro da organização. 

Grupos religiosos também prestam auxílio às famílias. À tarde, um pastor realizou uma oração formando um grande círculo com os familiares.

Uma voluntária, que não quis dar seu nome, diz que elaborou etiquetas com os nomes de 80 “coletes amarelos”.

Ela veio de Nova Serrana, no oeste do estado, com outras dez pessoas. “A gente chegou só distribuindo pirulito e um sorriso. Agora já estamos separando doações na quadra e encaminhando para hotéis onde estão atingidos”, conta.

Um grupo de 23 voluntárias, entre elas assistentes sociais e psicólogas, também aguardava seus coletes amarelos para iniciar o atendimento. O grupo chegou de Belo Horizonte numa iniciativa coordenada entre a Vale, o governo de Minas e uma ONG.

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