Em reduto gay de São Paulo, fui chutado enquanto ouvia 'morre, veado'

Em depoimento, designer gráfico da Folha relata violência que sofreu na rua Augusta

Márcio Sampaio
São Paulo

Depois de assistir a um filme no cinema do shopping Frei Caneca (no centro de São Paulo), no início de dezembro passado, minha ideia era voltar direto para casa. 

Mas, no caminho, distraído, pensando se comprava algo para comer, resolvi virar na rua Augusta, onde há mais opções de restaurantes. Eram 22h20, eu descia a rua e notei que um homem vestido de moletom e boné caminhava em minha direção. 

Trecho da rua Augusta, reduto LGBT no centro de São Paulo
Trecho da rua Augusta, reduto LGBT no centro de São Paulo - Alberto Rocha/Folhapress

Quando nos aproximamos muito e percebi que ele não iria desviar, rapidamente encostei na parede para que ele pudesse passar. Foi quando ele me deu uma rasteira e me derrubou. Logo em seguida, começou a me chutar e a gritar: “Morre, veado!”.

Segundos depois, assustado e sem olhar para trás, levantei-me e corri para o primeiro restaurante que estava aberto na rua Frei Caneca. Atenciosos, os garçons foram à via para ver se o agressor ainda estava lá, mas ele já havia ido embora.

Sem ter sofrido ferimentos, fui ao 4º Distrito Policial registrar um boletim de ocorrência. O caso foi descrito como “agressão” e não houve menção a homofobia, apesar de episódios de violência contra homossexuais serem cada vez mais frequentes na região.

CRIMES DE INTOLERÂNCIA

Reportagem da Folha deste domingo (13) mostrou que os registros de crimes relacionados à intolerância no estado de São Paulo atingiram um pico durante as eleições de 2018. Em agosto, setembro e outubro, meses de campanha, foram 16 casos por dia, em média, o que representa mais do que o triplo dos 4,7 registros diários ao longo do primeiro semestre.

O aumento começa em julho e atinge o ápice do ano em outubro, mês da votação de primeiro e segundo turnos, com 568 boletins de ocorrência— pouco mais de 18 por dia.

O total apenas do mês das eleições representa 67% do acumulado dos seis primeiros meses do ano e é mais que o triplo do observado em outubro de 2017, quando foram 159 registros, média de 5 por dia.
Os números recuam em novembro, mas seguem altos em comparação ao primeiro semestre do ano passado.

Os dados, obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação, são de boletins de ocorrência registrados no estado para crimes motivados por algum tipo de intolerância: por homofobia ou transfobia, racial, por etnia ou cor, origem, religião, e outros.

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