Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

'Em vez de uma zona de guerra, vilarejo parece grande velório', diz jornalista

Um dos primeiros repórteres a chegar no local do desastre conta suas impressões

José Antônio Bicalho
Brumadinho (MG)

​​O vilarejo parecia um grande velório. Não havia os gritos de desespero nem o choro convulsivo que eu esperava encontrar em uma zona de guerra arrasada. O que se viam eram pessoas atônitas com a notícia do desaparecimento de tantos parentes, amigos e vizinhos, andando de lá para cá, se reunindo em pequenos grupos nas esquinas. 

Lógico que havia lágrimas, e muitas, mas não aquela energia de revolta que eu aguardava. Estavam todos em estado de choque, perplexos, entorpecidos.

Ao redor das pessoas havia o caos. No início da tarde, as poucas ruas do pequeno vilarejo de Córrego do Feijão se entupiram de carros de polícia, do Corpo de Bombeiros, ambulâncias, caminhões, tratores e vans das TVs. No grande largo gramado em frente à igreja, no centro do vilarejo, havia o frenesi dos helicópteros decolando ou pousando a cada cinco minutos. 

Nas casas não havia água, luz nem internet. E todos os moradores estavam nas ruas, buscando informações sobre os seus, consolando-se mutuamente.

Córrego do Feijão é muito pequeno. São apenas algumas dezenas de famílias distribuídas por meia dúzia de ruas. Para se chegar lá, vindo de Belo Horizonte, é preciso atravessar o maciço de montanhas do Parque Estadual da Serra do Rola Moça até o distrito de Casa Branca, que tem bom comércio e vários condomínios de sítios. Dali são mais 11 quilômetros por estrada de terra até o povoado. 

A estrada se transforma em rua principal de Córrego do Feijão e é possível atravessar o vilarejo a pé em 15 minutos. 

Ali, todas as famílias dependem, direta ou indiretamente, da mineração de ferro feita na montanha que lhes rodeia e fecha o horizonte.

Na manhã do dia seguinte da tragédia, os números que dimensionariam o desastre ainda eram imprecisos. Até a liberação da primeira lista de resgatados, no início da noite, falava-se da possibilidade de morte de algo entre 250 e 300 pessoas, mas só na lista de empregados não contatados, divulgada pela Vale, havia mais de 400. 

Cinco dias após o acidente, o número de mortos subiu para 84. Dos corpos localizados, 42 foram identificados. Ainda há 276 desaparecidos.

Já é certo, porém, que o rompimento da barragem do Córrego do Feijão é a maior tragédia humana provocada pela mineração no país, muito maior do que a ocorrida em Mariana, há três anos, quando morreram 19 pessoas.

Por uma coincidência, eu estava em Casa Branca na hora do acidente e, por isso, fui um dos primeiros jornalistas a chegar a Córrego do Feijão. Como estive também em Bento Rodrigues, o vilarejo arrasado pelo rompimento da mineradora Samarco em novembro de 2015, meu primeiro sentimento foi de alívio por ver que a malha urbana do bairro não foi atingida pela lama. No entanto, logo entendi por que a tragédia de agora é muito maior do que aquela outra.

Em Córrego do Feijão, diferentemente de Bento Rodrigues, as estruturas físicas de trabalho e permanência de trabalhadores estavam abaixo da barragem de contenção de rejeitos. O escritório administrativo, o refeitório, a oficina, o laboratório, o almoxarifado e todas as demais estações de trabalho estavam bem abaixo da barragem. E foram, todas elas, engolidas pela lama segundos após o rompimento, sem possibilidade de fuga a quase ninguém.

Em Bento Rodrigues, essas estruturas estavam acima da barragem e, por isso, as mortes dos trabalhadores se deram apenas entre aqueles que estavam justamente na manutenção da barragem. 

Já em Córrego do Feijão, a morte veio para todos. É terrível imaginar que o acidente se deu na hora do almoço, em algum momento entre 12h30 e 13h, quando o refeitório, com capacidade para mais de cem pessoas, deveria estar lotado. É terrível imaginar a lama matando as pessoas que estavam ali, almoçando ou trabalhando.

Depois de arrasar toda a estrutura operacional da mina e de matar os trabalhadores, a lama correu vale abaixo, numa área rural distante apenas 500 metros da área urbana de Córrego do Feijão. 

Neste momento, ainda não se tem o número preciso de famílias, vítimas e imóveis atingidos, mas moradores dizem que na área havia algo próximo a dez sítios e casas rurais, além da Pousada Nova Estância, um lugar requintado.

A pousada era frequentada por turistas a caminho do Instituto Inhotim, de arte contemporânea, um dos maiores do mundo no gênero. Quem se hospedava ali eram os turistas que não queriam ficar em Belo Horizonte, a mais de uma hora de distância do museu, nem na cidade de Brumadinho. 

No meio do caminho entre BH e o museu, a pousada era opção para quem buscava pernoitar num lugar charmoso, bucólico e rural. O roteiro básico dos hóspedes era tomar o café da manhã e, na sequência, sair para o Inhotim, com retorno no final da tarde. 

Dona da pousada, Cleosane Coelho Mascarenhas, 58, foi enterrada nesta terça (29). Seu marido, Márcio Mascarenhas, e o filho, Márcio Paulo Coelho Mascarenhas, continuam desaparecidos. Hóspedes também são procurados.

Consegui conversar com três pessoas que viram a onda de lama de perto: um trabalhador da área de lavagem de caminhões de transporte de minério da Vale e dois moradores da área rural atingida. 

Segundo seus relatos, os três mais ou menos parecidos, o primeiro aviso veio do comportamento estranho e sensitivo dos cachorros e galinhas. 

Minutos depois, o rugido do arraste da lama. O que se enxergou foi uma grande nuvem de poeira sendo erguida ao longe. Em minutos, apareceu a grande montanha de lama espessa, dobrando-se em ondas sucessivas umas sobre as outras, mais altas que casas, quebrando árvores, arrastando pedras e tudo mais que houvesse pela frente.

Wander Alves Rezende trabalhava na lavagem de caminhões. Cochilava no dormitório depois do almoço na hora do acidente. Disse que acordou com o rugido e que correu para um morrote próximo, de onde viu a onda passar a poucos metros. Na sequência, conseguiu retirar da lama uma adolescente que ele acredita que tenha quebrado as pernas. 

Cássia Oliveira morava em um sítio. A onda de lama passou a 100 metros da sua casa. Foi avisada do rompimento por telefone por uma vizinha e correu com sua mãe e três sobrinhas para uma área mais alta nos fundos da casa, de onde viu a onda passar "levantando um poeirão, quebrando tudo, fazendo um barulho que entrava pelo ouvido, pelo peito, pela barriga".

Se o drama humano provocado pela tragédia está colocado à vista nas ruas de Córrego do Feijão, mesmo sem que saibamos ainda o número exato de mortos, feridos e desabrigados, o drama ambiental ainda é uma incógnita. 

Em Mariana, a lama correu para o grande rio Doce, matando toda a vida dele até sua foz no Espírito Santo. Aqui em Brumadinho, a lama correu para o importante rio Paraopeba, tributário do São Francisco antes que esse atinja a enorme barragem hidrelétrica de Três Marias. 

Uma barragem, que tinha capacidade de 11,7 milhões de m3 —cerca de um quarto do total do volume despejado pelo rompimento em Mariana, em 2015— se rompeu. Pelo menos outra barragem transbordou após o rompimento da primeira.

Resta saber se a dimensão ambiental dessa nova tragédia será menor nessa mesma proporção. Pode-se matar alguém com 20 tiros, mas também com apenas um. Quantos metros cúbicos de lama será necessário para matar um rio como o São Francisco? Isso saberemos em breve.

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