Isolados, moradores à beira de estradas em São Paulo vivem cidade esquecida

Nessas áreas, cavalete de rodovia vira varal e caixa eletrônico fica em delegacia

Mariana Zylberkan
São Paulo

​​Da janela do sobrado, a dona de casa Hilda Alves Oliveira, 52, consegue ver a "ilha", apelido dado por moradores do Jardim Lourdes, na zona sul de São Paulo, ao pedaço do bairro isolado pelas três pistas da rodovia dos Imigrantes que corta a vizinhança. 

Ela conta que na "ilha" passa apenas uma linha de ônibus, e a outra alternativa de transporte, um ponto de ônibus na rodovia, é evitada porque a passarela que dá acesso tem assaltos recorrentes. "Minha filha e um vizinho já foram roubados ali", diz ela, que mora no bairro há 20 anos. 

O cotidiano de acesso precário a transporte público e falta de segurança dos moradores na "ilha" do Jardim Lourdes ressoa no dia a dia de outros moradores da capital que vivem na beira de rodovias nos extremos da cidade. 

Afastados do centro e, muitas vezes, vítimas de uma indefinição sobre quem deve prestar serviços em regiões de divisa com outros municípios, eles parecem viver em partes esquecidas da cidade que completa 465 anos nesta sexta-feira (25).

Quando precisa "ir a São Paulo", como os vizinhos de Hilda se referem às áreas centrais da cidade, a dona de casa precisa sair de casa de madrugada, independente do horário do compromisso. "Depois das 5h30 ninguém mais consegue entrar nos ônibus que circulam pelo bairro, saem todos superlotados", diz. 

Longe dali, na beira da rodovia Anhanguera, a situação é a mesma. Com apenas uma linha circular no bairro Parque Anhanguera, a mulher do operador de máquina Clarisvaldo Monteiro Filho, 52, sai todos os dias de casa uma hora mais cedo para conseguir embarcar. "Senão, ela fica no ponto só vendo os ônibus saírem lotados", diz o marido. 

A preocupação, porém, é com a filha que faz faculdade de direito à noite e chega em casa tarde todos os dias. Apesar de ela ter carro e não depender de transporte público, Clarisvaldo conta que fica na beira da rodovia à sua espera todas as noites na alça que dá acesso ao bairro. "Vou sempre com um facão ou com um pedaço de pau. Vejo assalto todos os dias aqui. É preciso reduzir a velocidade para entrar na alça, e é quando os bandidos agem", diz. 

Ele se orgulha de contar que construiu a casa onde a família mora na beira da Anhanguera, mas tem pensado em deixar o bairro. "Nos sentimos abandonados", diz. 

Outro incômodo recorrente em seu dia a dia é a dificuldade para realizar tarefas simples, como sacar dinheiro. O bairro dispõe de apenas um caixa eletrônico, que fica dentro de uma base da Polícia Militar. As filas e a falta de cédulas de dinheiro é recorrente, mas, segundo o morador, os bancos se negaram a instalar outros equipamentos no local por causa da falta de segurança. "Eles dizem que a rodovia é uma boa rota de fuga para os ladrões."

​Da varanda de sua casa, ele mostra o ponto exato em um dos acessos da rodovia Anhanguera ao Rodoanel onde vê motoristas sendo assaltados diariamente. "Nem adianta chamar a polícia, tem só uma viatura para todo o bairro", lamenta. ​

Perto dali, as crianças do bairro frequentam o CEU Anhanguera, que também fica às margens da rodovia. O ponto de ônibus mais perto fica na própria rodovia, o que representa um perigo diante de qualquer descuido dos pais. "Perdi a conta de quanta gente já vi morrer atropelada aqui na estrada", diz a autônoma Luciana Manara, 46, que mora desde criança no Morro Doce. 

No Jardim do Russo, no distrito de Perus, na zona sul, a preocupação de crianças do bairro próximo da rodovia dos Bandeirantes aumenta no período de férias. A líder comunitária Nadir da Rocha, 72, se refere ao período como "época das pipas", quando as crianças estão de férias e usam o acostamento da rodovia para empinar pipas. "Já perdemos muitas delas atropeladas na rodovia", diz. 

Sem outras opções de lazer, a área perigosa pela proximidade com o trânsito de veículos em alta velocidade acaba sendo a única alternativa de diversão. Os centros comunitários, como o administrado pela líder comunitária Nadir no bairro desde os anos 1990, com atividades e refeições, ficam  fechados entre dezembro e janeiro. 

No topo de um morro rente às faixas de rolamento da Bandeirantes, a dona de casa Josefa Simões de Melo, 70, está com a casa cheia com a chegada dos netos que estão de férias.

A poucos metros da porta de sua casa, estão os cavaletes de ferro instalados pela concessionária para impedir o avanço de construções irregulares na área de segurança da rodovia. Os cavaletes fazem as vezes de varal, e é onde a dona de casa deixa roupas para secarem ao sol. 

Ela lembra que chegou ali há cerca de 20 anos fugindo da seca na sua cidade natal, Garanhuns, em Pernambuco. "Passamos muita necessidade lá, só chegava água de 15 em 15 dias", diz, emocionada. 

Apesar de se incomodar com o barulho que vem do movimento de carros na rodovia, ela ainda prefere morar na casa de alvenaria do que na cidade de onde veio. "Não quero mais voltar, foi uma vida de muito sofrimento no norte", diz ela, que fica nervosa só de lembrar os muitos acidentes que presenciou de dentro de sua casa que dá vista para a rodovia. 

O aposentado Gumercindo Cardoso, 85, mora a poucas residências de distância da dona de casa e faz questão de mostrar a praça que construiu com a ajuda dos outros seis moradores há cerca de um ano.

Cansado de esperar a prefeitura regional de Perus atender os pedidos para revitalizar o espaço entre as casas, que fica nas margens da rodovia, Gumercindo decidiu arrecadar dinheiro entre os vizinhos e fazer a reforma sozinho. Ele conta que vive no bairro há mais de 50 anos e sempre teve que mobilizar a vizinhança para conquistar melhorias na região. "De rede de esgoto a asfalto nas ruas, tivemos que fazer quase tudo nesses anos todos."

"Aqui era um matagal só, matei três cobras que apareceram aqui na rua. A prefeitura não vinha porque dizia que era responsabilidade da rodovia. Ficava largado", diz o aposentado. 

Com o montante de R$ 3.000 que conseguiu arrecadar entre os moradores, o aposentado limpou o terreno, cimentou a área, colocou mesas e cadeiras de madeira e fez uma horta. "Aqui tem chuchu, tomate, pimentão, coentro e até seriguela. Muita gente já comeu aqui da horta", diz.  

No fim do ano, a praça, que antes era um matagal mal cuidado, foi usada para a festa de fim de ano da vizinhança. "Fizemos um forrózinho  aqui", diz ele, apesar de tudo orgulhoso de seu bairro. 

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