João Doria toma posse e faz série de críticas aos 24 anos de PSDB no comando de SP

Tucano disse que estado precisa deixar de 'pensar pequeno' e que a partir de agora 'tem comando'

Artur Rodrigues Guilherme Seto
São Paulo

João Doria (PSDB), 61, tomou posse como governador do estado de São Paulo na manhã desta terça-feira (1º). Em discursos na Assembleia Legislativa e depois no Palácio dos Bandeirantes, ele atacou os 24 anos de governos do PSDB no estado, apesar de pertencer ao mesmo grupo tucano, e chorou ao citar os seus pais.

Doria disse que o estado precisa deixar de "pensar pequeno" e que a partir de agora "São Paulo vai mudar, agora tem comando". O novo governador ainda pediu a reestruturação do partido, hoje sob o comando de Geraldo Alckmin, ex-governador do estado, derrotado na disputa presidencial e ausente na cerimônia. "Vamos ajudar o PSDB a estar sintonizado com o novo Brasil", disse Doria. 

Em relação a Alckmin (governador de 2001 a 2006 e de 2011 a 2018), Doria fez apenas uma menção breve a ele durante seu discurso de cerca de 30 minutos na Assembleia, quando disse que, ao promover mudanças no PSDB, não desrespeitaria a história construída pelo ex-governador e outros tucanos históricos, como os também ex-governadores Mário Covas (1995-2001) e José Serra (2007-2010) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Nos discursos, Doria prometeu ouvir as urnas e fazer um governo "com políticos" e não "de políticos". Ele afirmou que agora o Palácio dos Bandeirantes será o "palácio do trabalho" e que não morará lá, cortando assim o que seriam, na visão dele, privilégios e mordomias para seus familiares. Alckmin, por exemplo, morou no palácio ao longo de todo o seu governo.

Em outra indireta a Alckmin, Doria prometeu o fim da "romaria de prefeitos" ao palácio. "Não vamos fazer romaria para cafezinho, chá." Alckmin é um conhecido apreciador de café, tanto em campanhas de rua como ao receber políticos para reuniões.

"Não espere aquilo que foi feito aqui no Palácio. Não quero fulanizar, mas a partir de agora vai mudar", disse o novo governador de São Paulo.

Em 2016, quando disputou a eleição à Prefeitura de São Paulo, Doria teve justamente em Alckmin seu principal cabo eleitoral. Eleito no primeiro turno, assumiu o município e passou a disputar contra o próprio então governador a vaga de candidato do partido à Presidência da República. 

Doria perdeu essa disputa interna, abandonou a prefeitura após apenas 15 meses de gestão e deixou uma longa lista de projetos não realizados e uma série de metas não cumpridas no município. À época, decidiu disputar o Governo de São Paulo, eleição que conquistou no segundo turno, ao bater Márcio França (PSB), antigo vice de Alckmin, em uma disputa acirrada e recheada de ataques. 

Além de Alckmin, outros tucanos com história no partido não compareceram aos eventos de posse de Doria, como o prefeito paulistano Bruno Covas, FHC, o senador Serra e o ex-governador Alberto Goldman.

Nos últimos 24 anos, o PSDB comandou o estado em 23 anos. Desde 1995, foram apenas duas rápidas interrupções, com Cláudio Lembro (DEM, antigo PFL) em 2006 e França (PSB) em 2018.

Alguns tucanos presentes à posse colocaram panos quentes nas críticas de Doria aos antecessores no cargo. Marco Vinholi, ex-deputado estadual e agora secretario de Desenvolvimento Regional, diz que Doria não fez ataques pessoais. "O partido valoriza suas lideranças históricas, mas agora precisa responder aos anseios da sociedade."

Já para a senadora eleita Mara Gabrilli, Doria não estava se referindo especificamente a Alckmin ao falar de um palácio com menos cafés e mais trabalho. "O cafezinho é um modo tradicional de fazer política. Não vi uma referência pessoal."

Sobre a esfera federal, em suas falas nesta terça, Doria prometeu apoiar projetos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de reforma da Previdência, privatizações e manutenção da reforma trabalhista. "Se Jair Bolsonaro for um grande presidente, será bom para o Brasil e para os brasileiros." 

Também disse que os deputados tucanos trabalharão pela redução da maioridade penal e pelo fim do que chamou de "saidinhas" de presídios. 

Durante a campanha, o tucano colou sua imagem à de Bolsonaro, ao pregar o chamado Bolsodoria. Doria viaja à tarde para Brasília, onde participará da cerimônia de posse presidencial. 

Desafios de Doria

No Governo de São Paulo, Doria enfrentará uma série de obstáculos, como uma bancada menor de seu partido na Assembleia. Além da política, ele terá desafios nas privatizações, segurança, mobilidade e educação.

O novo governador herdará contas relativamente em ordem e o menor índice de homicídios do Brasil, mas terá de contornar dificuldades que seus antecessores tucanos não enfrentaram, como uma bancada menor na Assembleia Legislativa. 

A principal plataforma de campanha de Doria foi a segurança pública. Ele prometeu que a polícia atiraria para matar e, ao assumir, sinalizou que pretende colocar em prática o discurso duro das eleições, transformando em vitrine o enfrentamento ao PCC.  

Entre as heranças negativas do tucanato, Doria terá de reverter uma série de erros na área da mobilidade. Os monotrilhos das linhas 15-Prata e 17-Ouro do metrô, vendidos como alternativas rápidas e baratas, por exemplo, estão atrasados e encareceram.

Tirar do papel parcerias e desestatizações prometidas na campanha estão entre os principais desafios de Doria. Na Prefeitura de São Paulo, seu grande programa de desestatização, que prometia passar à iniciativa privada equipamentos públicos como o Anhembi, o estádio do Pacaembu e o parque Ibirapuera, não gerou nenhuma realização concreta até o momento

No estado, o governador eleito anunciou a cifra de R$ 23 bilhões em desestatizações. A estrela do pacote é o sistema prisional, responsável por um orçamento de R$ 4,5 bilhões ao ano. SP tem 227 mil presos em 170 unidades, em ambiente dominado pela facção PCC.

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