Descrição de chapéu Obituário Jefferson Roberto Cosme dos Santos (1989 - 2018)

Mortes: Jefferson Nagô, líder caboclo do Carnaval pernambucano

Em sonho que teve aos 20 anos, foi convocado a presidir a Tribo Carijós

Dhiego Maia
São Paulo

A cada nova amizade que fazia, Jefferson recontava com precisão cirúrgica o enredo de um sonho que mudou os rumos da própria vida.

O dito sonho promoveu um encontro mágico. De um lado estava um caboclo —entidade cultuada na umbanda, sob a figura de um índio— e, de outro, ele próprio, então um jovem de 20 anos, cheio de emoção pelo que via em sonho.

Não houve conversa entre os dois. Jefferson dizia que na epifania participou de um ritual e, em um dado momento, a entidade apontou o dedo na direção dele.

O gesto foi interpretado pelo olindense como um presságio: ele seria, dias depois, o escolhido para presidir a Tribo Carijós do Recife.

A Tribo Carijós é a agremiação de caboclinhos mais antiga do Carnaval do Recife. Fundado em 1896, o grupo não desfilava nas ruas da capital pernambucana havia mais de uma década até o sonho de Jefferson vir à tona.

Para assumir o posto, Jefferson foi buscar a bênção de um tio, o líder espiritual dos caboclinhos da comunidade. Confirmado na função, usou a lábia lapidada no teatro para engajar os novos e os velhos membros. A retomada da Tribo aos cortejos ocorreu em 2011.

De lá para cá, a agremiação saiu do grupo de acesso e voltou à elite do Carnaval do Recife. O auge veio em 2016, quando a Tribo Carijós foi declarada patrimônio imaterial do país. No ano seguinte, também viu seu nome na lista de homenageados da festa de rua.

De sorriso largo, era visto por todos como um líder nato e um otimista incorrigível. Nas cerimônias e nos ensaios do grupo, Jefferson atraía holofotes pela sua indumentária que impunha respeito.

Ele vestia um terno branco, portava um cocar, segurava uma bengala em uma das mãos e mais um guia da Tribo (espécie de colar nas cores verde, branca e vermelha) no pescoço. “O cocar ninguém podia pegar por uma questão religiosa”, diz o irmão Anderson dos Santos.

Ainda no hospital, pediu à namorada que não deixasse os caboclinhos à deriva. Jefferson morreu no dia 17 de dezembro por complicações de uma infecção gerada por uma ferida no pé.

Neste Carnaval seu nome voltará às ruas do Recife. Sua breve vida, de 29 anos, será recontada no enredo da Tribo Carijós. Anderson diz que vai quebrar a tradição ao usar no cortejo o cocar antes só tocado pelas mãos do irmão.

Jefferson deixa a namorada, os pais, dois irmãos e uma centena de caboclinhos do Recife.
 


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