Descrição de chapéu Obituário Naftaly Steinberg (1922 - 2019)

Mortes: Sobrevivente, passou por sete campos de concentração

Judeu polonês perdeu a família na guerra, mas viveu mais sete décadas

São Paulo

Há cinco anos, o já nonagenário Naftaly Steinberg foi internado por problemas nos rins. Teve parada cardíaca e respiratória. O cérebro ficou sem oxigênio. Entrou em coma induzido, os órgãos paravam de funcionar, e tudo indicava que a hora do adeus tinha chegado.

Era um fim digno para este sobrevivente do Holocausto, com passagem por sete campos de concentração. Ele, porém, queria viver. "Ele sempre lutou para viver", diz a mulher, Joselia. Após 30 dias, Naftaly melhorou. Teve alta cinco dias após sair do coma e deixou o hospital lúcido e saudável.

Judeu nascido na Polônia, filho de um casal pobre, Naftaly foi arrancado da família pelos nazistas quando adolescente. Passou pelos campos de Branden, Johannsdorf, Gräditz, Markstadt, Fünfeichen, Gross-Rosen —participou da marcha da morte para este, que tinha crematório—​ e Buchenwald.

Ele contava que roubava batatas nos campos para sobreviver, segundo Joselia. Se apanhado, era chicoteado. Em muitas ocasiões teve de roubar até a comida dos cachorros, que era o melhor que tinha por ali.

As más condições de saúde o levaram a contrair tifo. Deram-lhe um balde de chá. Suando e tremendo, achou que fosse morrer. Tinha conseguido escapar dos chuveiros de gás, não se conformava que morreria daquele jeito.

Sobreviveu, contrariando a sorte dos tantos corpos ao lado dos quais despertava a cada dia. Após seis anos, foi libertado, com o fim da guerra. Descobriu que perdera os pais e os dois irmãos.

Viveu um período em Israel e,em 1956, veio ao Brasil.

Acabou se estabelecendo em Curitiba. Trabalhou vendendo roupas, e vivia com a renda indenizatória e com a ajuda da comunidade.

Há 35 anos, conheceu Joselia, então cuidadora de um amigo. Mesmo com mais de quatro décadas de diferença, começaram a namorar, discretamente. Há 22 anos, tiveram um filho, Roni. Só foram morar juntos, porém, depois do coma de cinco anos atrás.

Como reflexo dos tempos em que não tinha nada, Naftaly —​ou Naftuly, como era chamado—​ tinha o hábito de cozinhar para uma semana, e usava as mesmas roupas por décadas. "Tudo o que eu como hoje é um banquete", dizia. "Lá atrás eu comi pão verde e duro."

Morreu no último dia 7, por insuficiência renal, aos 96 —mais de 70 anos depois do pretendido pelos nazistas. Deixa Joselia e o filho Roni.


coluna.obituario@grupofolha.com.br

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