Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Na madrugada, famílias de desaparecidos tentam manter esperança

Durante a madrugada, o Corpo de Bombeiros interrompeu as buscas no Córrego do Feijão, o que gerou insatisfação

Rubens Valente Pedro Ladeira
Brumadinho (MG)

Na madrugada após o rompimento da barragem em Brumadinho (MG), famílias de desaparecidos aguardavam notícias em vigília reunidas no centro comunitário do distrito do Córrego do Feijão, o povoado mais próximo do local do desastre. Entre palavras de esperança e sinais de cansaço por um dia de buscas, tensão e choque, os moradores pareciam aos poucos ceder à realidade e reconheciam que eram diminutas as chances de reencontrarem com vida seus parentes, amigos e colegas.

A Vale montou uma pequena base de triagem no centro comunitário, com comida e alguns colchonetes no chão, para acolher famílias da região.

“Não tinha mais nada lá da pousada. Levou tudo, arrasou tudo”, disse o bombeiro hidráulico Jeferson Ferreira dos Passos, 32, que passou a tarde procurando sem sucesso sua irmã, Jussara Ferreira dos Passos, 35. Ela trabalhava como camareira da pousada Nova Estância que, segundo Jeferson, foi inteiramente varrida pela lama.

Jeferson disse que, assim que ouviu falar do rompimento da barragem, correu para a pousada e, com a ajuda de outros moradores, ainda conseguiu retirar com vida duas mulheres da lama, duas amigas de Jussara. Mas da irmã não encontrou nenhum sinal. “Do jeito que encontrei lá, é muito difícil alguém ter se salvado. Mas vamos ver”, disse Jeferson.

Ele disse que o desastre foi uma surpresa para todos que ele conhecia na região. “Eu vim para cá há mais de 20 anos, nunca ouvi falar que a barragem tinha problema ou podia romper, nunca ouvi.”

Na mesma pousada estariam desaparecidas cerca de 12 pessoas, segundo o vigia Carlos Eduardo Araújo, 20. Ele também passou o dia atrás de informações sobre sua mãe, Cristina Araújo, 39, que trabalhava como auxiliar de limpeza da pousada. Sentado num colchonete, no chão, ao lado do estudante de Direito Jeferson Custódio, 19, que também procurava sua avó, Diomar Custódio dos Santos, 57, Carlos Eduardo reconheceu que as chances de reencontrar sua mãe eram pequenas. “Não tem mais nada ali. Tudo ficou devastado”, disse Araújo.

Diomar, a avó do amigo de Carlos, também trabalhava na pousada, como cozinheira. “Esperança a gente tem, mas quando você vê as fotos de satélite, vê que arrastou tudo. Não sobrou nada. É difícil. Era horário de almoço, elas estavam todas na cozinha”, disse Custódio.

O estudante mostrou à Folha a última mensagem mandada a ele por sua avó em um aplicativo de celular, às 12h20, cerca de 40 minutos antes do rompimento da barragem, uma fotografia com dizeres, : “A vida pode parecer complicada, difícil, mas lembre-se, Deus dá as batalhas mais difíceis aos seus melhores guerreiros”.

Durante a madrugada, o Corpo de Bombeiros interrompeu as buscas na região do Córrego do Feijão, o que gerou insatisfação entre as famílias dos desaparecidos. Os trabalhos deverão ser retomados logo no início da manhã deste sábado (26). Mas um grupo de cinco bombeiros civis, voluntários que foram ao local quando souberam do rompimento, continuou atrás de sinais de sobreviventes mesmo durante a madrugada. Eles fizeram uma pausa à 1h30 e prometiam retomar a operação às 4h00. Um dos membros do grupo, Ivan Rafael Nicolau da Silva, 29, disse que à tarde conseguiu chegar a cerca de cem metros do local onde funcionava a pousada Nova Estância, mas não encontrou vestígios de sobreviventes. Ele mora em Ouro Branco, a cerca de 60 km de Brumadinho.

“Chegamos às 15h00 e conseguimos tirar dois casais ilhados. Depois fomos ao local onde era a pousada. Só aparecia uma casinha pequena e lá não resta mais nada. Vamos voltar 4h00 para ver se tem algum corpo, se a gente consegue achar alguma coisa. É duro o trabalho lá. Tem que ser devagar. A lama é muito densa e não se sabe onde está pisando, não tem como andar”, disse Silva.

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