Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Sobreviventes de Mariana revivem tragédia e relatam raiva e medo após Brumadinho

Há três anos sem casa própria ou indenização, moradores querem ajudar novas vítimas a buscar direitos

Júlia Barbon Estelita Hass Carazzai
Rio de Janeiro e Curitiba

A lama está a quase 100 km de distância e corre para o lado oposto, mas Arthur, de 7 anos, ainda teme que ela chegue em sua casa. O medo vem das lembranças de quando uma onda de terra muito parecida com a de Brumadinho (MG) deixou sua família “ilhada” três anos antes. 

Arthur foi um dos muitos sobreviventes do rompimento da barragem de Mariana que choraram ao saber da nova tragédia.  “Ficamos muito abalados. Eu não consegui dormir, tô  muito nervosa, não tô conseguindo fazer as coisas direito”, conta sua mãe, Maria do Carmo D’Angelo, 45.

Ainda sem casa própria ou indenização, os antigos moradores dos povoados varridos em novembro de 2015 pelos rejeitos da Samarco —pertencente à Vale e à anglo-australiana BHP Billiton— agora relembram um luto que nunca passou e relatam mais dor, raiva e medo.

O posto de saúde da região chegou a abrir em regime especial de plantão no fim de semana caso alguém passasse mal após a notícia do desastre, e pelo menos uma mulher foi atendida.

“O que eu mais ouço é: parece que estamos revivendo tudo”, diz o padre Geraldo Barbosa, 57, um dos párocos das comunidades atingidas naquele ano. Ele celebrou uma missa em Mariana no último domingo (27) em homenagem às vítimas de Brumadinho.

“A vida e a dignidade humana não têm preço. É pecado que clama aos céus negligenciá-las sob qualquer pretexto e, mais ainda, submetê-las aos ditames de um sistema que as sacrifica em favor do lucro”, o padre leu durante a celebração.

O clima era de união. Três sobreviventes testemunharam sobre as duas tragédias, comparando as semelhanças e convocando a comunidade a ir a Brumadinho. Para eles, é preciso “ligar a fé com a vida”. “É um fortalecimento, para que Mariana não seja esquecida e haja punição”, diz Barbosa.

Até agora ninguém foi responsabilizado pelo rompimento que deixou 19 mortos e um rastro de destruição do interior de Minas Gerais ao litoral do Espírito Santo. E menos de 6% das multas ambientais foram pagas pela Samarco. 

Enquanto a Renova —fundação criada pela empresa para reparar os danos— constrói um novo vilarejo de Bento Rodrigues, previsto para 2020, os atingidos vivem em casas ou apartamentos alugados na área urbana. Eles recebem um salário mínimo e o valor referente a uma cesta básica por mês, mais 20% por dependente.

José de Jesus, 73, conhecido como Zezinho do Bento, trabalhava justamente nas obras de reconstrução da vila quando ficou sabendo do rompimento em Brumadinho. Sua primeira reação foi pensar nos 11 sobrinhos que vivem na região, muitos dos quais prestam serviço para a Vale —nenhum foi atingido.

“A sensação que dá é de que volta tudo à estaca zero. As coisas voltam a acontecer, e sem a gente estar reassentado nem indenizado”, diz ele, que perdeu sua casa e todos os seus pertences na tragédia de Mariana.

No sábado (26) e na segunda (28), as obras pararam “em solidariedade aos atingidos pelo rompimento da barragem em Brumadinho”, segundo a Renova. Apenas os atendimentos básicos às famílias de Mariana aconteceram nesse dia, como transporte, serviços de saúde e entrega de ração.

Os sobreviventes agora planejam usar o que aprenderam para ajudar as novas vítimas. “Estamos esperando um pouco as coisas se assentarem para irmos lá e tentarmos orientar. A empresa infelizmente é capitalista e vai deixar muita gente sem seus direitos resguardados”, diz o mecânico Mauro Marcos da Silva, 49.

“O cadastro emergencial, por exemplo, está levantando apenas as vítimas fatais. Ainda não existe um cadastro para as perdas materiais que é essencial para a reparação”, afirma ele, que faz parte da comissão de atingidos. “Quem ficar de fora depois só vai conseguir por ação judicial.”

Para Marino D’Angelo Júnior, 50, pai do menino Arthur, também é hora de compartilhar. “A única coisa a dizer para eles é que somos solidários, que podemos dividir essa luta. A Vale usa o tempo como um aliado para que tudo isso caia no esquecimento.”

Produtor de leite, ele conta que ficou impedido de trabalhar quando parte das terras que a família tinha nos distritos de Paracatu de Cima e de Baixo foram devastadas. Passou a tomar três antidepressivos, desenvolveu diabetes e pressão alta.

A renda caiu de R$ 23 mil para até R$ 5.000 mensais, e a produção de leite, de 900 para 300 litros diários. “Nosso terreno onde plantávamos comida para o gado não tem mais mão de obra. A gente tinha uma vida estável, que lutamos muito para poder ter.”

Agora eles lutam para conseguir a casa própria. Mas para sua esposa e mãe de Arthur, Maria do Carmo, com a tragédia de Brumadinho ficou ainda mais complicado. “Está difícil voltar à luta de novo com a mesma intensidade”, diz.

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