SP se prepara para ameaça tripla de vírus transmitidos por mosquitos no verão

Preocupações no estado são febre amarela, dengue tipo 2 e chikungunya

Angela Pinho
São Paulo

​Com a chegada do verão, o estado de São Paulo se prepara para uma tripla ameaça de vírus transmitidos por mosquitos: dengue tipo 2, chikungunya e febre amarela. ​O risco, intensificado pelo calor, vem de três locais.

A dengue já aparece com força em regiões do interior, como as de Araraquara e São José do Rio Preto. Nessas localidades, chama a atenção a presença importante do tipo 2 da doença, que não era predominante no estado, diz Regiane de Paula, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica do estado.

Segundo ela, os sorotipos mais prevalentes desde 2014 vinham sendo o 1 e o 3. O vírus tem quatro sorotipos. O problema de quando um deles está sumido e volta a circular é que, quando infecta alguém que já teve outra forma de dengue, a doença vem com mais força.

“Tivemos grandes epidemias nos últimos anos, então muitas das pessoas que vão pegar dengue já tiveram antes. Com isso, talvez o total de casos não seja muito maior, mas o de evoluções mais graves, sim”, afirma Mauricio Lacerda Nogueira, presidente da SBV (Sociedade Brasileira de Virologia).

Outra preocupação, saída do Rio de Janeiro, é com a chikungunya. O vírus, que também é transmitido pelo mosquito Aedes aegipty, pode causar dores severas nas articulações, que chegam a durar meses ou até anos.

No ano passado, 38 mil pessoas foram infectadas no Rio. “A pergunta não é se a chikungunya vai causar uma epidemia em São Paulo. É quando, neste verão ou no próximo”, diz Nogueira, da SBV. A principal razão para essa certeza é a suscetibilidade da população paulista ao vírus, que nunca circulou com força no estado desde que foi introduzido no Brasil, em 2014.

Para prevenir tanto a chikungunya como qualquer tipo de dengue, só há uma saída: evitar ao máximo a proliferação do aedes, combatendo depósitos de água parada. 

Segundo levantamento divulgado no último dia 12 de dezembro pelo Ministério da Saúde, 250 cidades paulistas estão em estado de alerta ou surto para as doenças transmitidas pelo inseto. A medição é feita de acordo com o número de criadouros encontrados. Entre esses municípios, estão alguns de porte médio, como Araçatuba, Itapevi, e São Vicente. 

O levantamento do ministério mostrou também que cerca de 80% dos criadouros estão nas casas. “Se as pessoas escolherem um dia da semana para tirar 15 minutos para limpar vasos e outros potenciais criadouros, teremos uma situação muito melhor”, afirma Regiane, do Centro de Vigilância Epidemiológica do estado.

O mosquito transmite ainda o vírus da zika, que, se contraído por grávidas, pode causar malformações no feto, como, por exemplo, a microcefalia.

Febre amarela

A terceira ameaça viral no estado é a febre amarela, principalmente no litoral. Autor de estudos sobre o avanço da doença em São Paulo, Adriano Pinter dos Santos, da Sucen (Superintendência de Controle de Endemias), explica que está ocorrendo no local uma amplificação do vírus.

Funciona assim: um mosquito transmite a doença a um macaco, que é picado por outros mosquitos, que, por sua vez, acabam por espalhar o vírus, picando humanos ou outros macacos.

Veterinário e epidemiologista, Pinter mapeou a disseminação da febre amarela pelo estado desde 2016 e conseguiu fazer projeções para prever por onde o vírus caminharia. O trajeto ocorre por meio de corredores ecológicos que, agora, levam ao litoral, do norte do estado à divisa com o Paraná.

Com as férias, a preocupação é que pessoas não vacinadas contraiam a doença. Até meados de dezembro, ainda era preciso vacinar 16 milhões de pessoas em São Paulo. A dose leva dez dias para fazer efeito.

‘Só sobrou um bugio na Cantareira’, diz prefeitura

Além de fazer mais de 500 vítimas no estado, a febre amarela dizimou desde 2017 uma população de milhares de macacos em São Paulo.

No norte da capital e da região metropolitana, a força do vírus foi devastadora. Dos muitos bugios que havia na região da Cantareira, sobrou apenas um, conta Juliana Summa, diretora do Cemacas (Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres). O animal, segundo ela, é visto ocasionalmente no Horto Florestal.

Antes da chegada da febre amarela, o local tinha 17 famílias de bugios, com cerca de 80 integrantes, que eram conhecidos nome a nome pelos funcionários. 

O macaco que sobrou, provavelmente, migrou de outra região da Cantareira. Por alguma razão, resistiu à doença, mas não pode ganhar companhia porque, na cidade de São Paulo, não há mais lugar na natureza que seja seguro para a sua espécie.

Como o vírus ainda está em circulação na capital, até segunda ordem todos os macacos bugios que chegam ao Cemacas, na zona norte de São Paulo, permanecem no local.

“Vamos esperar para ver o vírus vai embora ou fica em definitivo. Aí decidiremos o destino dos animais”, diz Summa. Uma possibilidade é esperar o desenvolvimento de uma vacina para os macacos.

Sem previsão de quando isso poderá acontecer, uma ala nova, maior, foi aberta para os bugios. No cativeiro, alguns chegaram a procriar, como o casal Luna e Bácaro. Pouco antes da chegada do vírus, estavam prontos para ser soltos. Agora, terão que esperar. 

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