Autoridades de São Paulo não queriam Marcola, chefe do PCC, na fronteira

Presídio de Porto Velho fica a 160 km da Bolívia, país com presença da facção criminosa

Rogério Pagnan Rogério Gentile
São Paulo

O envio do chefe máximo da facção criminosa PCC, Marco Camacho, 51, o Marcola, ao presídio federal de Porto Velho (RO) contrariou o desejo inicial de autoridades do Judiciário e do Ministério Público de São Paulo.

Eles preferiam que o destino do criminoso fosse unidade prisional longe da fronteira, em razão do temor de que ele poderia fugir para outro país. O presídio de Porto Velho fica a 160 km da Bolívia, país com forte presença do PCC.

O pedido de transferência de Marcola e da cúpula da facção ao sistema federal foi feito pela Promotoria após a descoberta de um plano de resgate de presos de Presidente Venceslau (SP) por mercenários.

O próprio pedido do Ministério Público de São Paulo afirma que os mercenários estavam sendo "treinados nas fazendas dele [um dos chefes do PCC] na Bolívia, os quais seriam originários de várias nacionalidades, inclusive soldados africanos com expertise no manuseio de armamento pesado e explosivos".

Isso explica porque parte da cúpula da Segurança de São Paulo ouvida pela Folha afirmava acreditar que Marcola ficaria em Brasília quando ele embarcou em avião das Forças Armadas na quarta (13).
Esse era considerado o destino ideal por integrantes do Judiciário e Promotoria, que também apontavam como possibilidade Mossoró (RN).

A decisão do governo federal de enviar Marcola para Rondônia foi acompanhada da seguinte justificativa: a equipe da prisão de Brasília seria muito inexperiente —a unidade foi inaugurada em outubro do ano passado.

Também justificaram que o presídio de Porto Velho fica próximo a um quartel do Exército, com homens prontos para atuar, o que foi permitido pela Garantia da Lei e da Ordem assinada pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Desde que foi inaugurada a primeira penitenciária federal em junho de 2006, segundo o Depen (Departamento Penitenciário Nacional), nenhum presídio federal registrou fugas ou rebeliões. Também não foram detectados casos de corrupção de funcionários nem de entrada de celulares.

Marcola, assim como os 21 presos do PCC transferidos na manhã de quarta, ficará em cela individual e sem alguns dos benefícios a que tinha direito em São Paulo, como televisores e visitas íntimas.

Até mesmo as visitas sociais ocorrem no parlatório, em que presos ficam separados por uma janela de vidro. Somente depois de um ano, com ótimo comportamento, o preso passa a ter o direito de receber visitas no pátio. As celas dos presídios federais não têm ponto de energia para ligar aparelhos eletrônicos, o que impediria até mesmo a recarga de celulares.

Como a Justiça decretou o cumprimento inicial no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), os presos devem ficar a maior parte do tempo fechados na cela (22 horas por dia) e o banho de sol será isolado ou em grupo pequenos monitorados por agentes.

Autoridades paulistas afirmam que o principal ponto positivo de Marcola ficar em Rondônia é que isso torna mais difícil a comunicação dele com outros integrantes do grupo e até com os advogados para envio de ordens.

Um dia após a transferência de Marcola e de outros membros do PCC, a Polícia Militar de São Paulo informou que prendeu 226 pessoas e capturou 100 foragidos

De acordo com a PM, as prisões e apreensões fazem parte de operação para reduzir a criminalidade no estado. Ao todo, 21 mil policiais saíram às ruas em 3.300 pontos para fazer prisões, abordagens e apreensões de drogas.

Perfil dos presídios federais

1.040 é a capacidade total de ocupação do sistema

5 unidades

Brasília (DF), inaugurada em 16.out.18

Mossoró (RN), inaugurada em 3.jul.09

Porto Velho (RO), inaugurada 19.jun.09

Campo Grande (MS), inaugurada em 21.dez.06

Catanduvas (PR), inaugurada em 23.jun.06

12.300 m² de área total em cada unidade

208 celas em cada unidade, de 6 m² cada uma 

Cada cela é individual e tem:
dormitório 
sanitário
pia
chuveiro
mesa
assento
paredes de concreto armado

Erramos: o texto foi alterado

A capacidade total do sistema penitenciário nacional é de 1.040 vagas, e não de 832 vagas, como afirmava a reportagem.

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