Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Chuva de pétalas de rosas e orações marcam um mês da tragédia de Brumadinho

Mortos e desaparecidos foram lembrados nesta segunda-feira (25)

Ato em memória às vítimas da tragédia de Brumadinho
Ato em memória às vítimas da tragédia de Brumadinho - Folhapress
Brumadinho (MG)

Às 12h28 desta segunda-feira (25), um helicóptero pairou sobre a ponte no rio Paraopeba, em Brumadinho (MG), e jogou pétalas de rosa brancas e vermelhas. No local, centenas de pessoas, familiares de vítimas e moradores do município de cerca de 40 mil habitantes, fizeram um minuto de silêncio.

O ato marcou um mês do rompimento das barragens na mina Córrego do Feijão, da Vale, que deixou 179 mortos e 131 desaparecidos, segundo a Defesa Civil de Minas Gerais. A mãe de uma das vítimas chorava e perguntava: "Cadê meu filho?". Outras pessoas faziam orações em voz baixa.
 
"Parece que tem uma hora que a gente vai acordar e que não vai ter acontecido. A ficha não cai", diz Cezar Augusto Pinto, 32. Ele perdeu o irmão Ramon Júnior Pinto, 34, gestor de contratos da Vale, na tragédia.
 
Os dois se falaram pela última vez no dia anterior, quando Ramon havia antecipado a comemoração do aniversário de cinco anos da filha. Cezar, que também trabalha na Vale, estava de férias quando houve o rompimento.

Um grupo de pessoas vestia camisetas brancas com a frase: "Não foi acidente, foi crime" e "Justiça!". Eram familiares e amigos de Francis Erik Soares Silva e de Luis Paulo Caetano, ambos de 31 anos, que seguem entre os desaparecidos.
 
Os primos, que nasceram e cresceram na mesma rua da cidade de Nova Lima, na Grande Belo Horizonte, voltaram à mina Córrego do Feijão no dia 25 de janeiro, para terminar um trabalho de revestimento de máquinas que haviam começado no dia anterior. 

Os dois trabalhavam para a empresa do tio, uma terceirizada da Vale. Por volta das 11h30, Luis Paulo falou com uma prima, que ficou no escritório, por telefone, para avisar que estavam entrando na mina. A última vez que o celular de Francis visualizou uma mensagem foi às 12h02, 26 minutos antes do rompimento das barragens. 

"A gente quer que seja feita justiça. Hoje faz um mês e parece que as pessoas já estão esquecendo. A Vale mesmo não dá notícias para a gente", diz Fernanda Maria da Neiva, 37, tia dos dois.
 
Ela diz ainda que a família teve que registrar boletim de ocorrência para que os nomes dos dois fossem inseridos na lista de desaparecidos, no dia seguinte à tragédia. A própria família teve que provar para a Vale que os dois estavam no local. 

"A gente fica nesse sofrimento. O telefone toca e eu fico apreensiva. Como voltar ao normal? Fico esperando uma notícia e ela não vem", conta Solange Luiza da Cunha Silva, 36, esposa de Francis. Os dois se casaram em novembro do ano passado, com apenas uma semana de diferença do casamento de Luis Paulo. A filha do casal, Melissa, 6, pergunta pelo caixão do pai todos os dias, segundo ela. 

Helicóptero joga pétalas de rosas durante ato em memória às vítimas da tragédia de Brumadinho
Helicóptero joga pétalas de rosas durante ato em memória às vítimas da tragédia de Brumadinho - Folhapress

BUSCAS CONTINUAM

O Corpo de Bombeiros reforçou que não há prazo para o fim das buscas em Brumadinho. Isso só ocorrerá quando todos os desaparecidos forem encontrados ou quando não houver mais possibilidade de identificação dos corpos. Segundo o porta-voz da corporação, tenente Pedro Aihara, os corpos encontrados na última semana já estão em estágio "bastante avançado de decomposição". 

"Na situação de rejeitos de lama, não temos um protocolo [internacional] específico e a gente têm variáveis ambientais que influenciam muito nessa situação. Em Mariana, por exemplo, fizemos recuperação de um corpo três meses depois, porque estava dentro de uma retroescavadeira. Quando há uma estrutura isolada, algo que protege, mesmo muito tempo depois, ainda se consegue fazer essa recuperação", diz ele.

Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais, nos últimos 30 dias foram registrados 340 casos no IML de corpos ou segmentos de corpos —destes, 10 foram identificados por DNA como sendo não-humanos. A polícia também prendeu cinco pessoas sob acusação de estelionato, por uso de documentos falsos. Uma delas tentou cadastrar como desaparecida uma pessoa que estava morta há dez anos.

"A pessoa está tentando incluir na lista de desaparecidos pessoas que não tem qualquer relação com o evento em Brumadinho, com intenção de auferir vantagem ilícita", explica o delegado Arlen Bahia. 

Os cinco nomes identificados como falsos foram retirados da lista. Porém, entre moradores de Brumadinho é comum ouvir uma desconfiança diante do número de vítimas —tanto em óbitos, quanto desaparecidos. Para eles, parece subestimado perto do número de pessoas que costumavam circular pela região da mina.

"Hoje temos mais precaução com esses nomes que entram, mas essas listas não estão fechadas. O número pode ser menor ou maior", afirma o capitão Júnior Silvano Alves, da Defesa Civil estadual. Houve ainda nomes identificados como duplicados, que também foram retirados. Em um balanço das operações, a Defesa Civil disse ainda que 185 pessoas seguem desabrigadas ou fora de casa, em virtude do desastre.

Até o momento, 103 laudos foram concluídos para dizer quem pode ou não retornar a suas residências. Somando os atingidos do rompimento e as populações que tiveram de ser retiradas de zonas de risco em outras barragens de Minas Gerais, mais de 1,2 mil pessoas estão fora de suas casas, segundo o órgão.

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