Em alerta com entrada de venezuelanos, Brasil busca soros contra difteria

Ministério só tem 12 tratamentos em estoque; queda em cobertura vacinal aumenta preocupação

Natália Cancian
Brasília

O surto de difteria na Venezuela em regiões próximas ao Brasil e a queda nos índices de vacinação por aqui levaram o Ministério da Saúde a fazer uma busca emergencial por soros contra a doença.

Considerada mais frequente em regiões com baixas condições sanitárias, a difteria é uma infecção causada por uma bactéria que se aloja principalmente nas amígdalas, faringe, laringe e nariz e pode evoluir para formas graves e complicações –daí a importância do tratamento rápido, feito com soro antidiftérico e antibióticos.

O problema é que, atualmente, o ministério só tem disponíveis em seus estoques tratamentos que poderiam atender 12 pessoas.

O número, atribuído à dificuldade para produção de soro antidiftérico no país, chamou atenção de representantes do governo diante do temor de um retorno da doença.

A avaliação é que, embora a quantidade possa atender à demanda nacional, não haveria soros suficientes em uma eventual emergência ou diante de um possível crescimento de casos.

Agora, a pasta fez uma consulta à Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) e solicitou entrega imediata de ao menos 200 tratamentos fabricados em outros países.

Desde a vacina contra difteria passou a ser incluída no Programa Nacional de Imunizações, casos confirmados da doença têm sido raros no país.

“A difteria é uma doença antes da era vacinal. Na década de 1970 era uma doença extremamente comum e com potencial de gravidade grande. Quando acomete as vias aéreas, dá obstrução, falta de ar, e as crianças vão parar em UTI, e quanto menor a criança, maior a gravidade. Mas desde que se introduziu a vacina no PNI, os casos caíram”, relata o infectologista Renato Kfouri, da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunizações).

Em 2018, houve apenas um caso confirmado, em Pernambuco. Em 2017, foram cinco. Para comparação, em 1997, eram 140 casos.

O registro de surtos na Venezuela e a tendência de redução na cobertura vacinal, no entanto, trouxe a preocupação de uma possível mudança neste cenário.

“É uma combinação perigosa e uma preocupação legítima. Estamos vulneráveis”, diz o especialista.

Entre 2015 e 2017, o índice de imunização de crianças de um ano com a pentavalente, vacina que protege contra difteria, passou de 96,3% para 83,4% —índice mais baixo da série histórica.

Em 2018, dados preliminares sugerem cobertura até o momento ainda mais baixa, de 76% –o número ainda pode mudar, já que municípios têm até abril para informar os dados completos.

O ideal, porém, seria que a cobertura ficasse acima de 95%.

“A realidade é que precisamos aumentar a cobertura vacinal. A pentavalente está disponível em todos os postos de saúde. Precisamos reforçar junto à população que o risco existe, mas que temos uma barreira, e é a vacina”, afirmou à Folha o secretário de vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira.

Soledade Benedetti, médica da coordenadoria de vigilância em saúde de Roraima, diz que equipes da secretaria de saúde e ONGs que atendem a imigrantes têm redobrado a vigilância nos últimos meses diante de possíveis casos.

O primeiro alerta ocorreu em 2017, quando foi confirmado um caso da doença em uma criança venezuelana que atravessou a fronteira de táxi com a mãe em busca de atendimento. Ela morreu em seguida.

Desde então, diz, não houve novos casos, mas a vigilância persiste. “É um problema na Venezuela e estamos muito preocupados que venha para cá. Nossas coberturas vacinais não são as melhores.”

Segundo Kfouri, por terem menor imunidade, crianças são o público mais vulnerável à doença –daí a importância de manter a vacinação em dia.

Atualmente, o calendário nacional de vacinação prevê que sejam administradas três doses da vacina contra difteria em menores de um ano, com doses de reforço na infância e adolescência.

“O problema é que vemos que boa parte das crianças completam as doses depois do recomendado. Muitas vezes o esquema incompleto leva a passar um semestre vulnerável. Por isso é importante que esses atrasos não ocorram”, diz Kfouri.

ALERTA A VIAJANTES

Na última semana, a Opas passou a recomendar que pessoas que planejam viajar para países com surto de difteria, caso do Haiti e Venezuela, estejam com a vacinação em dia e, se necessário, recebam uma dose extra de reforço –caso daqueles que estejam há mais de cinco anos sem serem vacinados.

A medida ocorre devido aos números registrados da doença em outros países.

Desde 2018, três países das Américas notificaram casos de difteria.

Na Colômbia, foram oito casos confirmados entre janeiro e dezembro do ano passado, incluindo três mortes. O Haiti enfrenta um surto da doença desde 2014, com ao menos 264 casos confirmados no último ano.

A Venezuela, por sua vez, vive um surto desde 2016, com 1.559 casos confirmados até janeiro deste ano, incluindo 270 mortes.

Autoridades, no entanto, sugerem que o número real pode ser ainda maior devido à crise no país e dificuldade em notificar os casos —daí a importância de manter a vacinação em dia.

“Se tivermos a nossa população consciente, mesmo que um caso esporádico [de difteria] entre, podemos fazer isolamento e impedir surtos”, disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante visita a Roraima neste mês.

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