Filho de ativista que atuou em caso João de Deus diz que mãe morreu no Líbano

Divulgação inicial dizia que suicídio havia ocorrido na Espanha; Itamaraty não confirma morte

Júlia Zaremba Marina Estarque
São Paulo

O filho mais velho da ativista Sabrina de Campos Bittencourt, 38, desmentiu a primeira versão sobre a morte da mãe. Segundo o adolescente de 16 anos, ela cometeu suicídio no Líbano, onde estaria com a namorada, não na Espanha. 

A primeira versão sobre a morte, divulgada no domingo por integrantes do grupo Vítimas Unidas, que apoia vítimas de violência sexual e do qual Sabrina fazia parte, dizia que a ativista havia morrido por volta das 21h em Barcelona, na Espanha.

Ela esteve em Barcelona antes de viajar para o Líbano, segundo o filho, para o lançamento de uma rede de proteção para brasileiros no exílio.

O objetivo da iniciativa é ajudar exilados políticos, como artistas, professores e políticos. Em uma publicação compartilhada em 1° de fevereiro, Sabrina escreveu que havia conseguido apoio da Unesco para as redes de proteção. A representação da Unesco no Brasil, porém, afirmou que “não tem nenhuma parceria” com a iniciativa.

Sobre o assunto, o ex-marido Rafael ​Bueno diz que Sabrina tinha “uma colaboração com a Unesco de Barcelona”, não do Brasil.

A embaixada brasileira em Beirute, no Líbano, e o Itamaraty não confirmaram a morte de Sabrina.

Uma funcionária do setor consular da embaixada afirmou à Folha por telefone que, até a noite desta terça (5), não havia sido feito o registro de óbito de Sabrina. 

O registro é importante para que o corpo seja transferido para o Brasil e para que sejam tomadas ações relativas a heranças e pensões, por exemplo. Deve ser solicitado na repartição consular responsável pela área onde ocorreu a morte, de forma gratuita, mediante declaração de um familiar brasileiro ou de representante escolhido pela família.

Já o Itamaraty informou que tomou conhecimento da morte por meio da imprensa e que autoridades brasileiras não foram procuradas pela família da mulher.

Disse ainda que os setores de assistência da embaixada em Beirute e do consulado em Barcelona estão buscando junto às autoridades locais mais informações sobre o caso.

Na noite de domingo (3), o filho mais velho da ativista escreveu em uma rede social que a família não precisa de “um papel que diga que ela morreu e que pode ser usado para localizar a gente a qualquer momento”.

Disse que a mãe pediu para ser enterrada debaixo de uma oliveira onde “tinha paz para escrever seus livros", junto de desenhos feitos pelos filhos e de "cartas de amor que recebeu durante a vida”. Não foram divulgadas informações sobre o enterro. 

Já o ex-marido, Rafael Bueno, afirmou à Folha que nenhum governo ou hospital atestaria a morte de Sabrina porque “não somos loucos de deixar os nossos dados em nenhum lugar”. “Há muita corrupção, muitos políticos, policiais, empresários envolvidos com o tráfico. Eles nos encontrariam no sistema”, disse, por meio de mensagem.

Segundo pessoas próximas, a ativista e a família sofriam constantes ameaças, um dos motivos que os mantinham longe do Brasil. Em entrevista à revista Marie Claire, em dezembro do ano passado, a ativista disse que se mudava de casa “a cada dez dias”.

Rafael também culpou as autoridades brasileiras por não fazerem nada para protegê-la, e disse que a última pessoa com quem ela conversou foi o youtuber Felipe Neto, de quem era próxima.

Felipe escreveu em uma rede social que a ativista ligou para ele um dia antes de morrer, “aos prantos por não aguentar mais a dor e a pressão das ameaças de assassinos que a perseguiam pelo mundo.”

Sabrina fazia parte do grupo que deu visibilidade, no ano passado, a uma série de denúncias de abuso sexual contra o médium João de Deus por mulheres que buscavam atendimento espiritual em um centro de oração em Abadiânia, no interior de Goiás.

Com as informações, o Ministério Público estadual instaurou uma força-tarefa que denunciou o médium por violação sexual mediante fraude, estupro de vulnerável e posse ilegal de arma de fogo. Ele teve a prisão preventiva decretada na Justiça e está detido desde 16 de dezembro. O médium nega todas as acusações.

Em janeiro, Sabrina apresentou uma denúncia ao Ministério Público em São Paulo de que João de Deus estaria envolvido em um esquema de tráfico internacional de bebês e de escravização de mulheres. Foi ela ainda quem comunicou à imprensa, em dezembro, que uma das mulheres que acusam o médium de abuso teria cometido suicídio.

A ativista também era porta-voz do Movimento Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), que reúne denúncias de violações sexuais cometidas por líderes religiosos. Além de João de Deus, ajudou em denúncias contra o guru das celebridades Sri Prem Baba, 52.

No fim do ano passado, Sabrina havia desmentido uma notícia falsa que circulou em redes sociais de que teria se suicidado. “Estou sendo alvo de gente louca, mas sigo na ativa”, disse na época.

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