Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Helicópteros destelham casa e desalojam moradores em Brumadinho

Estruturas foram danificadas por aeronaves que atuam no resgate após tragédia

Rubens Valente
Brumadinho (MG)

O mecânico Cleiton Cândido da Silva, morador no Córrego do Feijão, um bairro rural de Brumadinho (MG), é outra vítima indireta do desastre da barragem da Vale. Boa parte do telhado de sua casa foi destruída, vidros e móveis foram quebrados em decorrência da aproximação para o pouso de helicópteros utilizados na operação de busca e salvamento de mortos e desaparecidos do rompimento da barragem na Mina do Feijão.

A casa de Silva, que também tem amigos desaparecidos no desastre, fica em frente ao gramado da igreja Nossa Senhora das Dores, utilizada como base de operação para pousos e decolagens de helicópteros das diversas forças de segurança envolvidas na missão: Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal, ente outros. O mecânico não sabe quais dos aparelhos provocaram os danos na sua residência.

Bombeiros buscam por corpos em um ônibus nas proximidades do povoado de Córrego do Feijão
Bombeiros buscam por corpos em um ônibus nas proximidades do povoado de Córrego do Feijão - Pedro Ladeira/Folhapress

O ritmo de pousos e decolagens levando e trazendo bombeiros, ou trazendo corpos, tem sido intenso no gramado da igrejinha desde o começo da operação, no próprio dia do desastre, na sexta-feira (25).

Em algum momento da operação, foi anunciada a participação de 16 helicópteros num único dia com mais de 200 horas acumuladas de voo. Algumas vezes ao longo do dia é possível observar que os helicópteros precisam aguardar uma orientação para o pouso, o que intensifica o deslocamento de ar sobre as casas mais próximas. Há relatos de bebês e crianças que estão assustadas com a movimentação. O Córrego do Feijão é uma pacata comunidade com cerca de 400 moradores.

Com os danos causados pelos helicópteros, Silva teve que deixar sua casa, na qual morava com um irmão e dois sobrinhos, para viver provisoriamente num imóvel arranjado pela Defesa Civil. Os problemas começaram no último sábado (26), o segundo dia de buscas.

“As telhas começaram a se mover na casa. Aí eu fui lá procurar alguém da Defesa Civil, da Vale, para saber se iam tirar a gente daqui, o que iam fazer. Eles pediram para esperar, porque estavam sobrecarregados. Eu até entendi. Mas eu fiquei lá durante o dia e ninguém me procurou. Aí eu vim dormir aqui. No sábado de manhã, eu acordei com as telhas caindo em cima de mim”, contou Silva.

O mecânico contou que a solução para seu problema só ocorreu “depois de tudo ter acontecido”. “Foi igual a barragem, esperou a barragem estourar para tomar providência. Agora que a casa caiu, eles arrumaram uma casa pra gente sem estrutura nenhuma, sem nada para dormir. Nem vasilha eu tenho”, disse Silva.

Problemas também ocorreram uma casa que fica ao lado do gramado da igrejinha, onde mora o motorista Marcelo Gonçalves, que perdeu amigos no desastre de Brumadinho. A cobertura da garagem de seu carro foi quebrada e uma rachadura na parede de sua casa, que era pequena, segundo ele, se expandiu porque a força do vento deslocado pelos helicópteros “mexeu com a estrutura da casa”.

“É lógico que a gente sabe da importância e da necessidade dessa operação e apoia, temos amigos desaparecidos, mas poderiam fazer com mais cuidado e respeito pelos moradores, não precisa voo de helicóptero tão baixo assim, podia aguardar em outra posição”, disse o motorista.

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