Lama avança por rio, e moradores deixam casas

Mesmo a 300 km da barragem que se rompeu, população teme efeitos de rejeitos

Fernando Tadeu Moraes
Bacia do rio Paraopeba

Na comunidade de Ribeiro Manso (MG), às margens do rio Paraopeba, distante 300 km da barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho, o medo chegou antes da lama. 

Ali, as águas translúcidas não dão sinal da destruição que avança progressivamente pelo rio, atingido por rejeitos de mineração. Entretanto, alguns moradores, receosos, já deixaram suas casas, e imóveis se desvalorizaram em até 50%.

Um pouco adiante, um pesqueiro situado na Fazenda Porto Mesquita, na zona rural de Curvelo, viu a clientela desaparecer. “Num fim de semana normal, vinham aqui de 80 a 100 pessoas, mas no último não apareceu ninguém, embora a água continue igual”, diz o dono do local, Luís Machado.

Captar as expectativas e apreensões de pessoas que, a despeito de estarem afastadas do centro da tragédia, sofrem seu impacto, é um dos objetivos da expedição liderada pelo geógrafo Miguel Felippe, da Universidade Federal de Juiz de Fora.

O grupo de pesquisadores também busca avaliar os diversos danos físicos produzidos no rio, um dos principais afluentes do São Francisco, pelo lodo tóxico que vazou do reservatório da Vale. 

Durante três dias e 400 quilômetros, a Folha acompanhou a missão científica, que percorreu, pela estrada, o trecho do Paraopeba entre a hidrelétrica de Retiro Baixo, em Felixlândia, e Brumadinho.

“No rio, um desastre como esse gera um caminho de destruição não só da fauna e da flora mas também das formas de organização, do trabalho e do lazer das pessoas que vivem no entorno dele, muitas vezes a centenas de quilômetros de onde se deram os acontecimentos”, diz Ricardo Fernandes, do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração e membro da equipe.

Tais efeitos colaterais, porém, são ignorados nas análises de impacto ambiental, diz Alfredo Costa, professor do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais.

“O território abrangido por um estudo ambiental contém todas as particularidades de um evento de grande magnitude como o rompimento de uma barragem? Eu lhe ​respondo tranquilamente que não”, diz Costa.

A equipe de pesquisa optou por seguir o caminho contrário ao do avanço da lama. “Para avaliarmos o dano ambiental do rio, precisamos compará-lo com uma área ainda não afetada”, diz Miguel Felippe.
Foi no segundo dia da expedição que as marcas da tragédia se tornaram mais visíveis.

Assim que os pesquisadores se depararam com as águas lodosas e sanguíneas do rio Paraopeba, na altura de Pará de Minas (MG), a 110 km da barragem destruída, houve um silêncio geral. “A aparência está igual à que vimos no rio Doce”, lamentou Felippe.

O pesquisador se aproximou da água e colheu duas amostras de 500 ml de um líquido turvo, que, segundo moradores do local, havia mudado de cor na manhã daquela terça (5), 11 dias depois da tragédia. Em seguida, o geógrafo apanhou uma porção do solo enegrecido das margens. “Dá para ver que a água subiu de dois a três metros aqui”, constatou, apontando para pedaços de minério e pó de hematita que ficaram retidos no solo.

Ainda será necessária uma análise mais conclusiva dos efeitos da tragédia no curso d’água e no entorno, mas, segundo o pesquisador da UFJF, já é possível afirmar que o rio que ressurgir no futuro —processo que pode levar décadas— será diferente do que existia até 25 de janeiro.

“Esse material que está disperso no rio vai interagir com os peixes, com os bentos [organismos que vivem no substrato aquático], com o fitoplâncton; vai impedir a existência de algumas espécies que são mais exigentes e fazer, de certo modo, uma seleção das que existiam ali. É altíssima a probabilidade de que diversos tipos de peixes da região não resistam à turbidez atual. E ela não vai cessar de uma hora para outra.”

A lama de minério que se alastra pelo Paraopeba é composta de três camadas: uma densa, que se deposita no fundo dos rios, outra mais fina, que fica suspensa na superfície, e a química, invisível e que se mistura à água.

Quanto a este último parâmetro, a equipe de pesquisa ainda vai avaliar a presença de metais pesados na água coletada. Dados fornecidos pelo governo, no entanto, já mostraram presença de alumínio, ferro, mercúrio e chumbo em níveis até dez vezes maiores que o recomendável.

Os animais que sobreviverem ao contato com essas substâncias irão espalhá-las na cadeia alimentar, explica Gabriela Barreto, bióloga da equipe. Além disso, na tentativa de escapar do ambiente inóspito, muitos animais acabam migrando ou fugindo para áreas urbanas. “Vimos esse efeito após a tragédia de Mariana, com bichos invadindo as casas das pessoas”, diz Felippe.

Segundo o geógrafo, a catástrofe ocorrida há pouco mais de três anos no rio Doce pode ajudar a entender melhor a dinâmica da destruição no Paraopeba. “Além da contaminação das águas do rio e suas consequências para a vida local, os danos iniciais incluem desmatamento, assoreamento das margens e o recobrimento do solo pelos rejeitos. A longo prazo, o impacto depende essencialmente da maneira como se dará o manejo desses rejeitos”, diz Felippe.

O pesquisador diz que, no caso de Mariana, se optou por recolher os rejeitos apenas dos territórios urbanos. 

No caso de Brumadinho, o lodo invadiu o ribeirão Ferro-Carvão, e dali, já seguiu para o Paraopeba. O ribeirão, devido à sua topografia, acabou retendo em seu vale boa parte dos rejeitos. “Isso significa que as chuvas que estão caindo hoje e que vão cair nos próximos anos vão carrear esses rejeitos continuamente para o Paraobepa, fazendo desse desastre um evento crônico.”

A última parada da expedição se deu justamente diante daquilo que era o ribeirão, hoje sepultado pela onda de lama. Desolado, Miguel Felippe parecia não acreditar no que via. “Não existe mais nada. Ele simplesmente desapareceu.”

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