Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Menina de 11 anos é morta por policiais em favela no Rio, dizem moradores

Ela foi baleada no peito em frente à casa da mãe em Triagem, na zona norte

Rio de Janeiro

Uma menina de 11 anos foi morta e outros dois homens foram baleados por volta do meio-dia desta quinta-feira (14) em uma favela no bairro Triagem, na zona norte do Rio de Janeiro

Segundo moradores, policiais militares fardados e à paisana já chegaram na rua atirando. Jenyfer Cilene, 11, estava na porta da casa  e bar da mãe, Katia Cilene, 45. A Polícia Militar diz que não havia operação na região naquele momento e que nenhum policial efetuou disparos.

A garota foi acertada no peito, e a bala saiu pelas costas, segundo a irmã Estefany Gomes, 23. Chegou a ser levada ao hospital Salgado Filho, também na zona norte, mas já estava morta quando deu entrada, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde. 

Um menino de cinco anos que estava perto de Jenyfer naquele momento descreveu a mesma cena à reportagem.

“Só porque a gente é pobre e mora num barraco? Como que o policial chega atirando? Pelo amor de Deus, não pode, gente. Minha filha ganhou um tiro no peito. Ela me pediu socorro na porta do meu bar, estava ali conversando com quatro crianças. Disse: ‘Mãe, eu tô baleada’”, contou Katia em frente ao hospital, muito abalada.

De acordo com ela, os policiais que ajudaram a levar a menina para o hospital, que apareceram logo depois do ocorrido, também foram prestar depoimento na Delegacia de Homicídios. Ela diz que foram quatro tiros.

“Não tinha tiroteio. De onde que surgiu esse tiro se não tinha ninguém armado e só eles que apareceram? Foi quem então? Eu não tenho arma, ninguém tem arma na minha família. Alguém foi, né?”

Segundo o relato dos moradores da favela Vila Nova Jerusalém, que foi ocupada há cerca de um ano por 315 barracos de madeira e fica embaixo do metrô, os agentes entraram pela rua e pela linha do trem e começaram a atirar. O número de policiais não é consenso, mas varia de 5 a 15.

Um homem que também estava em frente à própria casa foi baleado na perna, contam a esposa e o cunhado que não quiseram se identificar. Ele entrou no barraco assim que foi atingido, e um policial teria entrado junto com ele para atirar mais uma vez, mas se afastou quando moradores começaram a gritar.

O homem é vendedor ambulante e cumpre pena usando uma tornozeleira eletrônica. Sua esposa, que havia acabado de voltar do hospital, disse que ele não corre risco de morte. “Mas está com um buraco enorme na perna, embaixo do joelho”, afirmou.

A poucos metros dali, um segundo homem que seria motoboy e estaria de passagem na comunidade também foi atingido duas vezes. Segundo um morador que também não quis se identificar, ele chegou a colocar as mãos para cima, mas foi baleado na perna e depois “à queima roupa” na barriga por um policial. O agente parou quando esse morador gritou “vai matar morador”, diz ele.

Algumas horas depois, ainda era possível ver as marcas de sangue nos três locais onde houve vítimas. Havia furos em uma porta de madeira e em um cano que leva água às casas, que de acordo com os vizinhos não estavam ali antes. 

Eles dizem que os policiais recolheram as cápsulas de bala. Um homem, porém, trouxe à reportagem duas delas que crianças acharam no chão da rua.

As três vítimas foram socorridas pelos próprios moradores com a ajuda de policiais que apareceram logo depois —o segundo homem baleado foi levado em um colchão até um carro de vizinhos. Eles contam ter expulsado os PMs e gritado ao longo de uma rua principal até que eles recuassem.

Depois, começaram uma manifestação que acabou com dois ônibus queimados —o Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 14h30 e conteve o fogo. O grupo trazia um pano branco com os dizeres “paz, luto, justiça, Jenyfer”. Eles acusam os policiais de terem usado balas de borracha e spray de pimenta para conter o protesto.

Quando a reportagem chegou, por volta das 15h, algumas viaturas da PM estavam estacionadas no meio de uma rua que dá acesso à favela, incluindo um blindado, e um grupo de moradores se organizava para protestar novamente.

A Polícia Militar negou o relato dos moradores. Em nota, afirmou que equipes foram acionadas para checar um roubo de carga no condomínio Morar Carioca, em Triagem, no início da tarde, e já acharam a menina baleada quando chegaram. Também disse não havia operação no local e que nenhum policial efetuou disparos. 

Na versão da corporação, além de Jenyfer, os agentes encontraram na região um homem baleado carregando uma mochila com entorpecentes e uma pistola e um outro que também havia sido atingido e foi socorrido pelos moradores.

A menina de 11 anos estudava na Escola Municipal Pareto, a um quilômetro dali. Sua mãe e uma de suas irmãs (eram cerca de dez filhos no total) passaram mal depois que ela morreu e tiveram que ser socorridas no hospital. “Chega a doer o coração. Ela era uma menina que não dava trabalho”, disse um homem que a conhecia.

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