Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Sem água, pataxós cancelam festa, e grávidas deixam aldeia

Assentados há apenas 1 ano e meio, índios dependem de rio agora contaminado

José Antônio Bicalho
Brumadinho (MG)

O cacique Hayó Hã-hã-hãe, da aldeia indígena pataxó Naô Xohã, diz que não consegue falar a verdade para Gervásio, 93, o membro mais velho da comunidade. A aldeia fica na margem esquerda do rio Paraopeba, numa área de densa mata atlântica, no município de São Joaquim de Bicas, poucos quilômetros abaixo do local onde estourou a barragem da Vale, em Brumadinho (MG).

"O rio já limpou, cacique?", pergunta o ancião. "Ainda não, Gervásio", responde Hayó. "Mas vai limpar. É só esperar a primeira chuvarada boa que desce tudo. Aí volta tudo", retruca Gervásio.

Triste, Hayó confidência à reportagem da Folha: "Como vou falar para ele que o rio tá morto, que nunca mais vai voltar ao que era? Ele nunca viu uma coisa assim, não vai entender como os brancos puderam matar nosso rio".

Indígena Pataxó Hã-hã-hãe da aldeia Naõ Xohã, às margens do rio Paraopeba
Indígena Pataxó Hã-hã-hãe da aldeia Naõ Xohã, às margens do rio Paraopeba - Hallel/Ascom/Funai

Na quinta (31), as secretarias mineiras de Saúde, do Meio Ambiente e de Agricultura, Pecuária e Abastecimento informaram, em nota, que água do rio Paraopeba apresenta riscos à saúde humana e animal e não deve ser consumida sem tratamento.

Gervásio Alves de Souza, apesar de ser o mais velho, é um dos poucos na aldeia que ainda não foi rebatizado com um nome indígena, dentro do esforço de recuperação das raízes culturais que vem sendo empreendido pelo povo pataxó. A cerimônia de batismo estava marcada para a próxima semana, mas terá que esperar porque a água do rio não pode ser mais usada no ritual.

Também não acontecerá neste ano a grande Festa das Águas, em 19 de abril, segundo maior evento do calendário pataxó, quando se celebra o Dia da Resistência Indígena.

"Quanta gente, quantos peixes ainda vão precisar morrer por causa de minério, de ouro, de prata. Nossa vida vale mais que isso", disse Ãngohó --que significa lua, esposa do cacique Hayó.

Na aldeia estão, hoje, 27 famílias, das 37 que ali viviam antes do rompimento da barragem. Dez delas partiram para a casa de parentes ou amigos em bairros de periferia de Belo Horizonte, porque tinham entre elas grávidas e crianças pequenas.

Ninguém informa ao certo quantas pessoas estão na aldeia, mas as famílias são numerosas, já que as mulheres se casam normalmente entre 15 e 16 anos, e os homens entre 17 e 18 anos.

O rio Paraopeba era a única fonte de água deles. Os pataxós a utilizavam para beber, cozinhar, banhar, lavar louças e roupas, regar hortas e mudas de árvores nativas que plantam numa área desmatada anteriormente por posseiros. E também para pesca, lazer e cerimônias.

Agora, a única fonte de água é a das doações. No último domingo (27), a coordenadoria regional de Minas Gerais e Espírito Santo da Fundação Nacional do Índio (Funai) se prontificou a enviar um caminhão-pipa, mas eles não têm onde estocar a água. Desde o rompimento, estão usando com parcimônia a água mineral doada para tudo, até higiene.

O Paraopeba corre bem pertinho da aldeia. É acessado por uma trilha de cerca de 200 metros. Essa trilha se abre numa clareira de onde se chega ao rio, que agora desce turvo e denso.

Em sua beira, o cheiro enjoativo de peixes em decomposição afasta as pessoas. Na margem a direita, um remanso provoca um redemoinho natural onde peixes mortos ficam presos, rodando.

Segundo Cíntila Santos de Souza, 17, também pataxó, o peixe era importante na dieta dos moradores da aldeia, mas não era a principal fonte de proteína. "Na verdade, comemos mais carne que peixe porque não estamos pescando mais com rede, justamente para preservar o rio. Mas o peixe pescado com vara vai fazer muita falta", diz ela.

A questão alimentar dos pataxós do rio Paraopeba é delicada porque a aldeia é muito nova e somente agora começa a esboçar alguma autonomia. Eles ocuparam a área, abandonada e que começava a ser grilada por posseiros, há apenas um ano e seis meses.

Plantaram roças de feijão, milho, abóbora e mandioca, e hortas de pimenta, coentro, hortelã e alho. O plantel do galinheiro ainda está sendo formado e eles evitam matar as aves para comer.

"Temos que comprar a carne. Então, comemos carne só quando tem dinheiro. Por isso o peixe era muito importante como reforço, como garantia", disse Cíntila.

Os pataxós da aldeia Naô Xohã percorreram um longo caminho até chegar a São Joaquim de Bicas e à margem do Paraopeba. Os que estão ali são do tronco Pataxó Hã-hã-hãe, oriundos de Coroa Vemelha, próximo de Porto Seguro, no sul da Bahia. São o tronco mais tradicional dos pataxós, da aldeia reverenciada como "a mãe de todas".

Moradores do sul da Bahia desde sempre, há cerca de 30 anos começaram a empreender um processo de desconcentração, em busca de espaço e oportunidades.

Cerca de dez famílias desceram para Belo Horizonte há mais ou menos sete anos, onde viviam da venda de artesanato e trabalho na construção civil. Endividados, empobrecidos e divididos, decidiram que iriam voltar coletivamente para a natureza.

Escolheram a área das margens do Paraopeba justamente por oferecer água abundante e natureza exuberante, "além de um dono que ninguém nunca soube quem é", lembra Hayó.

Ocupam ali área de 370 hectares praticamente toda coberta de densa mata atlântica. "O processo de reconhecimento da reserva indígena está muito adiantado, estamos quase lá", disse Gilberto Silva, advogado e membro da Comissão da Promoção da Igualdade Racial da OAB-MG.

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