Descrição de chapéu Alalaô

'Duvidaram de mim', diz única mestre de bateria deste Carnaval do Rio

Thaís Rodrigues, 30, é a única mulher a comandar ritmistas entre escolas que desfilam neste ano

Rio de Janeiro

Thaís já está acostumada com os olhares de canto. Os cabelos compridos e o corpo miúdo, para alguns, não seriam capazes de sustentar nos ombros os até cinco quilos e a responsabilidade do surdo de terceira, um dos tambores que marcam o pulsar do samba.

Mas quando a mão e a baqueta começam a se alternar no couro e o batuque dita o ritmo das outras centenas de instrumentos, o preconceito vira admiração. “Às vezes duvidam da minha capacidade, o que também já me fez duvidar, mas agora o que eu faço é ir lá e mostrar meu trabalho”, diz.

Thaís Rodrigues, 30, é a única mulher mestre de bateria do Carnaval do Rio deste ano
Thaís Rodrigues, 30, é a única mulher mestre de bateria do Carnaval do Rio deste ano - Ricardo Borges/Folhapress

Parar de ouvir as ofensas, segundo ela, foi o que a fez persistir e virar uma pioneira. Aos 30, Thaís Rodrigues será a única mulher a comandar uma bateria inteira de escola de samba neste Carnaval no Rio de Janeiro, com cem ritmistas.

Ela foi convidada para ser mestre da Feitiço do Rio, agremiação que vai abrir o desfile da Série E carioca no dia 9 de março, na Intendente Magalhães —estrada na zona norte da cidade por onde passam ainda as Séries B, C e D. 

Antes dela, de 2009 a 2011 houve Helen Maria, mestre de bateria da extinta Unidos do Uraiti (Grupo E). Neste ano, porém, as principais ligas de Carnaval dizem não haver outras mulheres no comando dos músicos.

Além da Feitiço, Thaís vai tocar em outras quatro escolas, incluindo a Unidos da Tijuca e a Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do Grupo Especial no ano passado. Isso sem contar os blocos de rua. 
“Dá tempo. É só tomar muito suco, comer muita fruta e não dormir”, diz, animada. 

A escola do coração, no entanto, nunca deixou de ser a Acadêmicos da Rocinha, favela da zona sul carioca onde cresceu. Foi ali que, 16 anos atrás, ela balançou o primeiro chocalho, “do jeito que achava certo”. Nunca mais parou, mas mudou de instrumento.

“Eu ficava lá na frente tocando e falava: caraca, que negócio chato. Aí perturbei o mestre até ele me colocar no surdo de terceira, que é o meu instrumento mesmo.” Dali ela passou ao surdo de terceira microfonado (o que leva o som à avenida toda e às TVs) e depois a diretora de surdo.

Thaís já perdeu as contas de quantas vezes lhe disseram que esse posto, normalmente dado a homens, só era seu porque o mestre de bateria tinha segundas intenções. “Considerei desistir, mas depois parei de pensar nisso. Eu tinha lutado para estar ali, suava do começo ao fim, me dedicava, ia em aula extra.”

Mesmo assim, sentiu o peso de ser mestre em dobro. “Já tem a responsabilidade de montar a bateria, de fazer um bom desfile, de tirar nota máxima, e ainda tem a de ser mulher. Porque para mim ser mulher é uma responsabilidade, a gente sai na rua rezando para chegar em casa.”

Thais Rodrigues com os braços para cima (em cada mão segura uma baqueta e o pandeiro)
Thais Rodrigues foi convidada para ser mestre da Feitiço do Rio, agremiação que vai abrir o desfile da Série E carioca no dia 9 de março, na Intendente Magalhães - Ricardo Borges/Folhapress

O samba já nasceu entranhado, ela acha. Tem a mãe, uma tia e uma madrinha que foram passistas, outra tia rainha de bateria, uma irmã e um irmão ritmistas, uma outra irmã passista. 

Quando era mais nova, Thaís participou de diversos musicais e hoje, além do Carnaval, se sustenta dando aulas particulares de bateria e outros instrumentos. No futuro, quer fazer faculdade de artes cênicas ou música. “Ou os dois, por que não?”

Na Acadêmicos da Rocinha, onde ensina crianças e jovens, ela diz que o pagamento vem em forma de agradecimentos e a felicidade do desfile, “que dinheiro nenhum paga”.

Thaís não mora mais na comunidade. Mudou-se depois que ela e a companheira tiveram que se trancar no banheiro por mais de três horas para se proteger de um tiroteio em 2017, durante uma guerra de facções. Os tiros entravam no quarto e na cozinha.

Às vezes, a ritmista sobe o morro chamando as crianças que não estão fazendo nada para ir ensaiar. Mas só se elas tirarem notas boas. 

O conselho para as meninas que querem seguir seus passos é algo que ela aprendeu por si: “Se alguém te ofendeu, chega em casa e estuda, estuda, estuda.”

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