Descrição de chapéu Alalaô

1985: O ano em que a política pôs os blocos na rua

O casamento entre euforia e política gerou dois blocos no Rio: o Barbas e o Simpatia É Quase Amor

Rio de Janeiro

Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente da República. Estava encerrada —ou suspensa— a temporada de presidentes militares, que durara 21 anos.

A eleição foi indireta, o vice José Sarney tinha sido um expoente civil da ditadura, mas o país recebia um sopro de alívio, de alegria, de alguma liberdade. “E um dia, afinal/ Tinham direito a uma alegria fugaz/ Uma ofegante epidemia/ Que se chamava carnaval/ O carnaval, o carnaval”, cantava Chico Buarque em “Vai Passar”.

Seria o Carnaval da redemocratização o que começaria um mês depois. Euforia e política tinham caminhado juntas no ano anterior, na campanha pelas eleições diretas para presidente. O resultado foi frustrante, pois a proposta acabou rejeitada no Congresso, mas a mobilização foi um sucesso.

O casamento entre euforia e política gerou, naquele janeiro de 1985, dois blocos no Rio de Janeiro: o Barbas e o Simpatia É Quase Amor. O primeiro fazia jus a este nome por causa da enorme barba de um de seus fundadores, Nelson Rodrigues Filho.

Nelsinho e quatro amigos haviam aberto, em 19 de janeiro de 1981, o bar Barbas, em Botafogo, bairro de classe média na zona sul do Rio. Ele e um dos sócios, Manoel Henrique Ferreira, tinham passado nove anos presos, sido muito torturados e feito greve de fome. Em carta escrita em 1976 ao arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, Ferreira denunciara o que acontecia nas prisões, apontando nomes de torturadores e detalhando seus métodos. Nelsinho fizera seu pai, revolucionário como dramaturgo mas conservador na política, relativizar o apoio que dava à ditadura.

Desfile de 1981 do Pacotão, em Brasília, com críticas às dificuldades do governo em conter a inflação
Desfile de 1981 do Pacotão, em Brasília, com críticas às dificuldades do governo em conter a inflação - Folhapress

Para os dois amigos e para outros ex-militantes da luta armada, como Cid Benjamim –libertado em 1970 graças ao sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, do qual Ferreira participou–, não havia contradição entre consciência política e euforia carnavalesca. Barbas, o bloco, surgiu dessa harmonia, em 6 de janeiro de 1985.

E criou duas marcas em seus desfiles de sábado de Carnaval: cantar não apenas um, mas dois sambas feitos a cada ano exclusivamente para o bloco e ter um carro pipa para refrescar os foliões –em torno de 20 mil hoje.

No mesmo janeiro, mas em Ipanema, bairro de gente com mais dinheiro, nasceu o Simpatia É Quase Amor. O nome foi retirado de um personagem das crônicas de Aldir Blanc. O primeiro desfile aconteceu em 9 de fevereiro, e o samba cantado não continha um verso político sequer. “No nosso bloco a ordem é folia”, começava a letra.

Parecia, portanto, coisa de “esquerda festiva”, como eram chamados, pejorativamente, os que juntavam militância e boemia. O grito de guerra até hoje entoado tem algo de irônico e muito de sincero: “Alô, burguesia de Ipanema!”.

Mas não era bem assim. Como detalha a jornalista Rita Fernandes no recém-lançado livro “Meu Bloco na Rua – A Retomada do Carnaval de Rua do Rio de Janeiro”, o Simpatia contava entre seus criadores com integrantes do ainda clandestino Partido Comunista Brasileiro e de movimentos como o das Diretas.

O bloco atrai hoje cerca de cem mil pessoas em seus desfiles –um no sábado anterior ao Carnaval, outro no domingo oficial.

Depois da festa, veio a ressaca em 1985. Tancredo morreu e Sarney assumiu. Em 15 de novembro, para desalento da esquerda, Jânio Quadros se elegeu prefeito de São Paulo.

No dia seguinte à vitória de Jânio, o cantor e compositor Jards Macalé teve um rompante na praia de Ipanema e arrancou um exemplar da Folha das mãos do fotógrafo Ricardo Ruiz. Não se sabe bem por que, mas o grupo em torno de Macalé resolveu naquele momento criar um bloco. Como a maioria era do bairro do Jardim Botânico, foi por aquelas ruas que o bloco estreou em 1986 – e continua até hoje, arrastando até 40 mil pessoas no domingo pré-Carnaval. O título veio de uma expressão de Tom Jobim, também morador do bairro, que fica sob o Corcovado, onde está o Cristo Redentor.

“Venham ver/ O odor do Redentor nos inspirou/ Sob o manto protetor/ Das divinas axilas” era o início do samba da estreia. A Igreja Católica protestou contra o uso do nome de Cristo num bloco, mas acabou cedendo.

O então governador Moreira Franco também tentou proibir o Simpatia de desfilar, em 1988, por falta de autorização. Ainda não havia essa exigência, botava o bloco na rua quem quisesse. A polícia também teve de recuar.

Havia uma demanda reprimida por alegria e liberdade política. O Bloco de Segunda veio no embalo em 1987. Em São Paulo existia o Vai Quem Quer. O pioneiro Pacotão, de Brasília, surgira em 1978, ainda em tempos duros. O aguerrido Clube do Samba, de João Nogueira, saía no Rio desde 1979. Apesar dos revezes, a política nunca mais deixou as ruas. E as pessoas, durante o Carnaval, também não.

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