Descrição de chapéu Alalaô

A década de 1920 foi aquela em que a literatura brincou e pensou o Carnaval

Homens e mulheres fantasiados participam de desfile de Carnaval nos anos 1920  - Reprodução
Luiz Fernando Vianna

Há cem anos, em 1919, Manuel Bandeira lançou seu segundo livro, “Carnaval”. Poemas como “Pierrot Místico” e “O Descante de Arlequim” indicam, já pelo título, que ainda havia muitas feições simbolistas no poeta que logo se tornaria expoente do modernismo.

Foi com “Libertinagem” (1930), reunião de poemas produzidos nos seis anos anteriores, que Bandeira se firmou um poeta popular, na temática e no reconhecimento por um público maior. 

Embora seja mais lembrado por “Vou-me Embora para Pasárgada”, “Pneumotórax” e outros poemas, o livro tem seu momento explicitamente carnavalesco em “Não Sei Dançar”, escrito em 1925 em Petrópolis, na serra fluminense, onde o autor enfrentava a tuberculose.

“Uns tomam éter, outros cocaína./ Eu tomo alegria!/ Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.” E mais adiante: “De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...”.

O verso acima reflete muito do que estava na pauta de artistas e intelectuais naquela década. Gilberto Freyre só lançaria “Casa-Grande & Senzala” em 1933, mas já traçava suas ideias sobre miscigenação, tendo o Carnaval do Recife, aliás, como um de seus interesses.

Mário de Andrade e Oswald de Andrade, protagonistas da Semana de Arte Moderna, realizada pouco antes do Carnaval de 1922, produziram em seguida textos importantes ligados à festa.

“Carnaval Carioca” (abril de 1923), de Mário, é dedicado a Bandeira. No poema, ele descreve como sua “frieza de paulista” derreteu sob o fogo da festa popular daquele ano. “Tremi de frio nos meus preconceitos eruditos/ Ante o sangue ardendo do povo chiba frêmito e clangor.” E depois narra, sem amarras de pudores, como se fascinou por foliões.

Ficou tão extasiado que falhou no compromisso de visitar Bandeira em Petrópolis. “Meu Manuel... Carnaval!... Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia... Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar... Fui ordinaríssimo”, escreveu ao amigo ainda em fevereiro.

O ideário modernista está nítido em versos como “Todo um Brasil de escravos-banzo sensualismos/ Índios nus balanceando na terra das tabas”.

Em 18 de março de 1924, Oswald publicou, no “Correio da Manhã”, o “Manifesto da Poesia Pau Brasil”. Duas semanas antes, tinha passado o Carnaval no Rio ao lado de sua mulher, a pintora Tarsila do Amaral, e do poeta suíço Blaise Cendrars.

O segundo parágrafo diz: “O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo”. Em seguida: “Bárbaro e nosso. A formação étnica rica”.

Oswald estivera em Paris em 1923. A cidade era uma festa, segundo Ernest Hemingway, e vivia os chamados “anos loucos” do pós-Grande Guerra —apenas a primeira, como se descobriria. O brasileiro testemunhou as vanguardas e foi influenciado por elas.

Os modernistas tratavam de um Brasil já não tão rural nem tão distante do resto do mundo como era até pouco tempo antes. O rádio chegava ao país e, com ele, o espalhamento de músicas e informações. No Rio dos anos 1920, apoiado nas novas tecnologias de gravação e difusão, o samba urbano nascido no bairro do Estácio de Sá se consolidava como sinônimo de samba brasileiro. No início da década seguinte, a trilha sonora do Carnaval ganharia novo tempero com as marchinhas.

Autores importantes escreveriam no futuro, com emoção, sobre o Carnaval dos anos 1920. No conto/crônica “Restos de um Carnaval”, publicado em livro em 1971, Clarice Lispector recordou o que vivera no Recife em 1928. Nascida na Ucrânia, chegara a Pernambuco três anos antes. Queria brincar nas ruas, mas, por causa da mãe doente, “ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança”.

Naquele ano, aos oito de idade, conseguiu enfim uma fantasia de papel crepom rosa. A mãe piorou, e ela teve de correr à farmácia.

“Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados.” No fim, a tristeza cedeu graças a um menino de “uns 12 anos”, que, “numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade”, cobriu de confete os cabelos de Clarice.

Também é no Recife da década de 1920 que se passam as recordações de “Carnaval Antigo”, de Antonio Maria. As de Paulo Mendes Campos em “Saco de Confetes” são num “arraial de Minas nos tempos do café”. Ambas foram selecionadas pelo jornalista Humberto Werneck, na semana que passou, para o Portal da Crônica Brasileira. Têm alegria e melancolia, como na maioria dos Carnavais.

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