Descrição de chapéu Centro

Aos 30 anos, Memorial quer recuperar sua vocação original latino-americana

Programação estendida de aniversário vai celebrar Darcy Ribeiro com seminário e exposição

Francesca Angiolillo
São Paulo

A mão na qual se desenha, como sangue escorrendo, o mapa do continente recebe os visitantes próxima da rampa que une as duas metades do Memorial da América Latina. Tem sete metros de altura, mas parece pequena, no meio dos 84 mil metros quadrados pelos quais se espraia, de um e outro lado da avenida, o conjunto projetado por Oscar Niemeyer, que nesta segunda (18) completa 30 anos.

A ideia da escultura que o arquiteto plantou em uma das entradas era conferir ao espaço um “sentido político” determinado, que ele descreveu em texto na Folha em 1998. “Aproximar os povos da América Latina, criar entre eles o intercâmbio cultural indispensável e, com isso, torná-los mais protegidos em relação às intervenções do capitalismo internacional.” Esse ideal é o que a atual gestão diz pretender resgatar.

“Quando você fala ‘memorial’, parece que a coisa está morta. Uma das funções da nossa gestão é ressuscitar a vocação, a ideia é trazer esse memorial vivo”, diz Jorge Damião, 62, diretor-presidente da instituição desde janeiro.

Em vez de marcar o 30º aniversário com um grande show ou uma mostra internacional, a opção foi por uma programação estendida celebrando Darcy Ribeiro. Antropólogo e pensador da identidade latino-americana, Darcy, morto aos 74 anos, em 1997, foi o grande ideólogo do Memorial; é dele o projeto 
cultural da instituição.

Entre as ações, haverá um seminário voltado para a educação, ramo importante na trajetória do antropólogo, pai dos Centros Integrados de Educação Pública durante o governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1991-1994).

Além disso, haverá uma exposição de fotos de Darcy em grande formato, do lado de fora do Pavilhão da Criatividade — onde estão expostas 4.000 peças de arte popular.O intuito, ao colocar sua figura nas pilastras externas, é marcar sua posição de guardião dessa vastidão espalhada e branca que, vista 
de fora, evoca um deserto. 

Os números dizem que não é bem assim. Em 2017, recebeu 2.665.972 visitantes; naquele mesmo ano, a sede carioca do Centro Cultural Banco do Brasil, uma das dez instituições mais visitadas do país, recebeu 1.337.566 visitantes. 

Damião diz se incomodar quando lhe perguntam se há uma meta numérica a perseguir. “Precisamos que o Memorial entre no inconsciente das pessoas no campo do lazer, da cultura”, diz. “Vou ficar realizado na hora que o cara lá de Guaianases [zona leste de SP] disser para o filho, vamos visitar o Memorial.”

A aparência monumental do conjunto, com o alvor refletindo o sol em boa parte do ano, cortado por uma via movimentada em que as calçadas parecem sumir, decerto não ajuda muito a tarefa.

Na revista Serrote, o crítico Francesco Perrotta-Bosch colocou o Memorial com o exemplo de edificação que, “sem qualquer traço de culpa, assumem a total desconexão com a cidade ao redor”. Entretanto a cidade está ali, à porta, nas estações de metrô, trem e ônibus da Barra Funda. Se a arquitetura falha em fazer o convite, outras ações têm de vir.

Neste ano, os portões passaram a fechar às 22h, em vez de às 18h, horário anterior, numa tentativa da atual gestão de atrair as pessoas que passam ali ao fim de seu dia. Num intuito de aproximar outro público vizinho, o da Uninove, foi promovida uma parceria para oferecer, no local, aulas gratuitas de espanhol para os brasileiros e de português para refugiados— a iniciativa engloba o Acnur, braço da ONU encarregado dessas populações.

Por sua vez, a Unesp, que ali do lado tem seu Instituto de Artes, fechou um acordo para promover concertos às terças e quintas. Como todas as atividades do local, gratuitos. O Memorial da América Latina é uma fundação, que depende da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

 Tem uma dotação orçamentária de em torno de R$ 18 milhões, para todas as suas contas, inclusive folha de pagamento dos 46 servidores atuais. Há também que dar constante manutenção aos prédios --“Aqui é o festival da goteira”, diz Damião. 

Em 2013, o fogo destruiu o Auditório Simón Bolívar, ferindo 16 pessoas e danificando uma tapeçaria de 840 m² de autoria de Tomie Ohtake, que decorava o local. Foi um trauma para a instituição. Hoje a tapeçaria foi recriada com fios antichamas, e o Memorial se reequipou, obtendo o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, que atesta sua segurança.

Mas há outras atualizações necessárias. Entre elas, estão a instalação de um café (“Uma coisa que nos chocou foi não ter uma lanchonete, não ter um lugar para tomar uma água”) e a melhoria da internet (“Queremos que o Memorial se torne um coworking latino-americano”).

O complemento para cobrir os gastos vem da locação para eventos, como uma exposição em torno dos 80 anos do personagem Batman, apesar da origem distante da latinidade. Ou, mais sintonizado com os planos atuais, o festival gastronômico Mesa São Paulo, em novembro, que terá uma seção de comida latino-americana.

Damião diz que a variedade é bem-vinda nesse objetivo, não quantificado, de ampliar o público. “Em janeiro eu tinha depressão olhando pela janela”, diz o gestor —as escolas, então em férias, são grandes visitadoras do espaço. 

Ele tem outros planos para o verão que vem.“No mínimo vou encher de guarda-sol e transformar isso aqui numa praia paulistana.” 


Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda; tel. (11) 3823-4600; memorial.org.br; entrada franca.

Biblioteca Latino-Americana
Prédio com 1.875 m² hospeda 42 mil volumes sobre o continente. O espaço tem também um auditório para 120 pessoas

Galeria Marta Traba
O espaço climatizado de 1.000 m² é dedicado à arte latino-americana; ganhará uma espécie de extensão virtual

Pavilhão da Criatividade
O acervo tem cerca de 4.000 peças de arte popular do Brasil, México, Peru, Equador, Guatemala, Bolívia, Paraguai, Chile, Venezuela e Colômbia

Salão de Atos
Lá pode-se ver o painel Tiradentes, obra mural de Candido Portinari, com 18 m de comprimento e 3 m de altura. Há também seis baixos-relevos, de 60 m² cada um, dos artistas Caribé e Poty, que aludem à ocupação do território latino-americano

Auditório Simón Bolívar
Após incêndio em 2013, foi reaberto em 15 de dezembro de 2017. Com 1.700 lugares, tem uma tapeçaria de 840 m² de Tomie Ohtake

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