Autores de massacre compraram armas brancas no site Mercado Livre

Policiais também acharam painel de tiro ao alvo perfurado, caderno e roupa de mangá sobre assassinatos

Artur Rodrigues Thaiza Pauluze
São Paulo e Suzano

Os autores do massacre na escola de Suzano, na Grande São Paulo, compraram armas brancas e outros objetos usados no crime na plataforma Mercado Livre, que agrega diversos vendedores. 

A polícia incluiu recibos das compras na internet entre o material apreendido relacionado aos autores do atentado, Guilherme Taucci Monteiro, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25.

Após planejarem o crime por mais de um ano, os dois mataram cinco alunos e duas funcionárias na escola estadual Professor Raul Brasil, além do dono de um lava-jato nas imediações que era tio do adolescente. Outras 11 pessoas ficaram feridas. 

No material apreendido, também há alvos onde os autores do crime praticaram tiro ao alvo e uma fantasia de um personagem de quadrinhos que representa a morte. 

A lista traz uma embalagem com etiqueta do Mercado Livre referente à compra de um arco e flecha (os criminosos usaram uma besta, espécie de arco, durante o crime).

Ao menos quatro comprovantes de pagamento do site de vendas online foram achados. A plataforma afirmou lamentar o episódio e que vai colaborar com as autoridades.  

Guilherme, 17 e Luiz Henrique 25, autores do massacre em uma escola em Suzano
Guilherme, 17 e Luiz Henrique 25, autores do massacre em uma escola em Suzano - Reprodução

Entre as armas brancas encontradas, além do arco, está uma machadinha e um machado, um deles usado para atacar alunos da escola, além de jet loaders (objeto para recarregar o revólver calibre 38). Um alvo para treino de tiro foi encontrado com perfurações. A venda dessas armas, bem como a da machadinha, não é ilegal, mas a de jet loaders é regulamentada. 

Há ao menos 11 telefones celulares, quase todos relacionados a Guilherme.

O material também inclui uma série de acessórios de vestuário, tais como bandana de caveira, luvas e coturnos militares. Também há uma peça que representa o personagem Riuk, do mangá Death Note. O quadrinho trata de um caderno que tem o poder de matar as pessoas cujos nomes foram escritos nele. 

Há ainda um caderno de capa dura com anotações de Guilherme. O material deve ser analisado pela polícia, com objetivo de obter informações sobre o planejamento do crime. 

O Mercado Livre emitiu nota afirmando que "compartilha da indignação e da tristeza do povo brasileiro diante do massacre ocorrido ontem em Suzano". "Consternados com a informação de que itens utilizados nesta ação poderiam ter sido adquiridos em nossa plataforma, fizemos contato com as autoridades policiais e colocamos-nos à disposição para colaborar com a investigação", afirma o comunicado. 

O site afirmou que os equipamentos mencionados são "amplamente utilizados em atividades legítimas como, por exemplo, para a prática de esportes (arco e flecha), cutelaria (machadinha) e marcenaria (machado)". O Mercado Livre afirmou ainda repudiar o uso ilícito desses equipamentos. 

Segundo a empresa, os Termos e Condições de Uso do site estão de acordo com a legislação brasileira e trazem e os anúncios trazem um botão de denúncia —​todas são analisadas e se houver infração o anúncio é removido. 

ARMAS BRANCAS

Armas brancas como a besta e o machado encontrados ocupam um vácuo no estatuto do desarmamento, segundo especialistas. Esse tipo de objeto pode ser comprado por qualquer pessoa com facilidade na internet, sem empecilho legal. 

Armas como a besta podem disparar setas com velocidade de até 400 km/h, e são encontradas facilmente à venda na internet. Os valores vão de pouco mais de R$ 100 até R$ 3.000, para os modelos mais sofisticados. Machadinhas usadas por militares também são facilmente adquiridas em lojas virtuais. 

"Esses tipos de armas, como arco e flecha, besta e balestra, não são regulados para comercialização pelo Estatuto [do Desarmamento]. Não tem nada que regule efetivamente esse tipo de arma", afirma Gustavo Neves Forte, criminalista e professor da Escola de Direito do Brasil.

O presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina, José Ricardo Bandeira, afirma que o estatuto regula apenas armas de fogo, munições e artefatos. "Alguns estados podem ter legislação específica para este tipo de armamento. Rio de janeiro, por exemplo, tem legislação que proíbe portar facas com mais de 10 cm de lâmina". 

Para eles, legislações estaduais como esta podem ser mais eficazes e simples do que incluir armas brancas no estatuto.

Bandeira afirma, por outro lado, que os "jet loaders" são restritos pelo estatuto do desarmamento. "É um artefato específico para carregamento de arma de fogo, assim como um carregador de uma pistola."

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