Descrição de chapéu Alalaô

Blocos da periferia levam política, quebra de padrões e identidade à rua

Longe da rota tradicional, agremiações como o Hercu, do Jardim Herculano, divertem milhares

Thaiza Pauluze
São Paulo

Nada de trio elétrico ou corda. Pelas ruas estreitas do Jardim Herculano só passa a bateria do bloco Hercu —seguido por foliões que vão da criança vestida de PM e de máscaras do Fábio Assunção a tiaras de ‘Não é Não’ e estandarte Lula Livre. 

O bairro, considerado um dos mais violentos de São Paulo, abriu alas no domingo de Carnaval (3) para a folia. Quem vive por lá troca a avenida Faria Lima, na zona nobre da cidade, pela quebrada do extremo sul paulistano. 

É que o Hercu fica “a 10 minutos a pé de casa” e rivaliza com as quase duas horas de ônibus até o centro expandido, diz Anna Beatriz Ferreira, 13. Também “é mais perigoso lá, tem muita muvuca”.

O analista de contas Leandro Santana, 37, concorda. No sábado, ele estava pela zona oeste, mas no dia seguinte preferiu o cordão na periferia. “Vi vários assaltos, brigas.” A prefeitura chegou a alterar o trajeto de alguns blocos próximos ao Largo da Batata para driblar a violência. “Aqui respeitam, é onde eu cresci.”

Mas o Hercu é o único num lugar que “só tem pancadão ou forró no boteco”. “E o Parque Ecológico, com uma quadra para jogar bola. Não tem áreas de lazer para tirar a molecada da rua”, diz o operador de produção Alexandre de Souza, 47.

Foi mesmo o déficit de equipamentos culturais que motivou a criação do cordão, conta o publicitário Carlos Alberto Souza Júnior, 25, um dos fundadores. O evento reuniu 4.000 pessoas, a maioria adolescente. Eles desfilavam cortes espetados e tintas extravagantes. Elas, tiaras de gatinha, diabinha, girassol e “Não é Não”.

O tema escolhido para titular o desfile, “Se fere minha existência, serei resistência”, reafirma “nossa luta para que a cultura popular não seja esquecida por questões políticas”, diz Carlos Alberto. A frase é usada por críticos ao governo Jair Bolsonaro

A politização deu tom à folia na quebrada. De vestido vermelho e pérolas, a professora Magali Corrêa, 60, saiu da av. Paulista para levar o estandarte “Melindrosas com Lula Livre” ao extremo da zona sul. “Temos que honrar os blocos periféricos e estar onde o povo está. A periferia é Lula Livre.”

Moradora da região, a empresária Diana Santos Ferreira, 34, vai na mesma toada: “a quebrada está sufocada, mas a gente quer gritar ‘Ele Não’”.

Ao longo do cortejo, foliões puxavam o coro de “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu”. A advogada Julia Elid, 34, aproveitava para distribuir convites para a primeira Marcha de Mulheres da Periferia, no Capão Redondo. “É na quebrada o lugar onde as mulheres mais morrem e sofrem violências”, diz.

Há quem pense que Carnaval e política não se misturam. “Envolver política pode gerar conflito, até briga”, diz o técnico em eletrônica Antônio Barbosa, 39, que consegue ver o cordão passar da varanda de casa, mas desceu para rua com o filho Enzo, 6, fantasiado de policial militar, arminha em punho. “Ele quer ser PM ou jogador de futebol.”

À frente da bateria, duas rainhas dividiam o posto. 

Fora dos padrões da avenida, a doméstica, “mãe de quatro filhos, nascida e criada aqui”, Milena Aparecida, 38, se intitula “rainha do povão”. E Max de Paula, 28, é a primeira “travesti e candomblecista” a ostentar o título. “É a quebra de dois tabus. Deveria ter rainha LGBTI no sambódromo também. Por que não?”

Os 50 ritmistas vão de Tim Maia a Fundo de Quintal e Raça Negra, até o funk de Cidinho e Doca “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci” e Parado no Bailão, hit dos MCs L da Vinte e Gury. Também cantam o samba enredo próprio para 2019, que vai assim: “Quando o bloco do Hercu nasceu, nóis não era nada nem ninguém”.

Em 2013, primeiro ano, a regra era a gambiarra. Os amigos ligavam o som do carro, com mais cinco instrumentos, e saíam rua abaixo. No seguinte, conseguiram o surdo, o chocalho e o tamborim emprestados. No terceiro, compraram R$ 1.000 em instrumentos —e cada um pagava uma parcela do cartão de crédito.

Agora, “compramos os instrumentos que a gente sempre quis”, diz Carlos Alberto. Também viram aparecer a estrutura. “Antigamente não tinha nem banheiro químico, só polícia e CET.” Neste desfile, foram oito banheiros cedidos pela prefeitura, duas ambulâncias e um posto médico. 

É que o Hercu foi um dos 11 blocos da periferia que este ano receberam aporte financeiro do edital Carnaval na Quebrada. 

O projeto é idealizado pela produtora de eventos de rua Pipoca e pela Nextel, por meio do Pro-Mac (Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais), da secretaria municipal de Cultura. Três cordões levaram R$ 15 mil e outros oito receberam R$ 5.000. 

Os com aporte maior foram o bloco Afro Percussivo Batuquedum, no Jardim Ângela (zona sul), o bloco 100 Lei, na Vila Medeiros (zona norte), e o bloco do Jatobá, em Itaquera (zona leste). 

Em comum, todos democratizam o Carnaval por becos, ruas e vielas, seja arrastando 200 ou 2.000 pessoas.

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