Descrição de chapéu Alalaô

Blocosfera: Apesar de retrocessos de direitos, está permitido o Carnaval

Desfiles são constantemente atacados pelos mais diversos argumentos

Leci Brandão

O Carnaval sempre fez parte da minha vida, especialmente os desfiles das escolas de samba. É uma festa que realmente me emociona. Eu gosto de ver o girar das senhoras baianas, a elegância de mestres-salas e porta-bandeiras, sentir a emoção de entrar no sambódromo depois do esquenta na concentração. Todos deveriam ter a chance de sentir essa emoção. Ver as escolas na avenida me deixa feliz. Por isso, tudo que envolve esta festa chama minha atenção.

Apesar de ser a festa mais popular e, por que não dizer, a que mais representa o que poderíamos definir como brasilidade, o Carnaval e os desfiles das escolas são constantemente atacados pelos mais diversos argumentos. 

Desde seu início a festa já foi muitas vezes perseguida e reprimida. Ela já foi considerada o “ópio do povo” (vez ou outra ainda escuto esta frase). Depois, passou a ser criticada sob o argumento de que prejudicava a economia. 

Segundo esses críticos, durante o Carnaval, nada era produzido no país. A cada ano, as grandes cidades demonstram que a realidade é outra. Nossa maior festa também é grandiosa quando o assunto é economia, geração de renda e trabalho. Só na cidade de São Paulo, em 2018, o Carnaval movimentou R$ 730 milhões, segundo informações do Observatório de Turismo e Eventos da SPTuris, superando uma expectativa inicial.

Mesmo com esses números, há os que ainda insistem em apontar que as verbas destinadas pelo poder público para a festa deveriam ser investidas em outros setores. Ninguém discorda de que, com um sistema de educação e de saúde cada vez mais precarizados, todas as verbas para essas áreas são bem-vindas. 

Porém, o retorno em trabalho, renda, comércio e turismo tem sido muito maior do que os investimentos.

A discussão já é feita há algum tempo e argumentos dos dois lados são muitos. Mas é preciso chamar a atenção para o significado cultural e simbólico da festa, principalmente para o povo negro. Quanto deve ser investido nisso?

O Carnaval e os desfiles das escolas não podem ser vistos apenas do ponto de vista econômico. O estado não pode ser pautado apenas pelo consumo ou pelo lucro. Quando o estado investe em cultura, o retorno vem na forma de exercício da cidadania, e esta não tem como ser calculada.  

Quem conhece a origem das escolas de samba sabe o significado que têm para a população negra, pois, com uma história marcada pela resistência, foi apenas nos espaços delas que muitos dos nossos conseguiram enxergar a possibilidade de existir e não somente resistir. 

Muitos dos argumentos contra os desfiles das escolas de samba e o Carnaval de rua, além de possuir uma enorme carga moralista, são tentativas de apagar a cultura negro-africana que gestou e ainda se mantém viva nos barracões. 

Não é mera coincidência que neste momento de retrocesso de direitos, costumes e avanço do conservadorismo religioso, esses argumentos ganhem cada vez mais força. 

Pense no que significa ver negras e negros —na maioria das vezes silenciados— tendo sua cultura celebrada por milhares de pessoas em todo o país cantando um samba em homenagem aos orixás; ou assistindo um desfile que fala da justiça por meio das cores de Xangô; que exalta a natureza com a força e a beleza das águas de nossa mãe Iemanjá; ou que, a exemplo do que fará a Estação Primeira de Mangueira, mostra a nossa história contada por nós —a história que não está nos livros.

Conseguir fazer isso mesmo com o avanço do autoritarismo, não tem preço. Tem a ver com cidadania, resistência política, cultural e estética. Peço licença a dois grandes nomes da nossa música, Daniela e Caetano, mas digo: Está Permitido o Carnaval!

Leci Brandão é cantora, compositora e deputada estadual pelo PCdoB

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