Descrição de chapéu Alalaô

Com homenagem a Marielle, Mangueira vence Carnaval do RJ pela vigésima vez

Escola falou dos heróis esquecidos ou "da história que a história não conta"

Júlia Barbon Fabrício Lobel
Rio de Janeiro e São Paulo

Com homenagens à vereadora Marielle Franco (do PSOL, assassinada há quase um ano), a Mangueira venceu pela 20ª vez o Carnaval do Rio de Janeiro nesta quarta-feira (6).

Em um ano de muitos desfiles com a temática da cultura e da resistência negra, a escola levou à Marquês de Sapucaí um samba para celebrar os heróis brasileiros escondidos pela historiografia ou a “história que a história não conta”, como diz o samba-enredo. 

Assim, a Mangueira trouxe à avenida índios, negros e mulheres fortes, como Marielle. A viúva da vereadora morta em março passado, Mônica Benício, foi à frente da última ala, composta de moradores de favelas que superaram o preconceito.

De cara, a comissão de frente apresentou caricaturas do que chamou de “heróis emoldurados”. Aristocratas andavam de joelhos, diminuídos ao lado de índios e mulheres negras, e Pedro Álvares Cabral vestia roupa de presidiário.

Entre os personagens que a escola homenageou estão Cunhambebe, chefe indígena que comandou índios tamoios contra colonizadores portugueses no século 16, e Luísa Mahin, africana vendida no Brasil que articulou revoltas de escravos no século 19.

Uma das alegorias retratava a luta negra, ainda que a maioria das dançarinas fossem brancas. Por outro lado, um carro foi empurrado apenas por mulheres negras.

O historiador e escritor Luiz Antonio Simas ressalta que a bateria da escola fez uma bossa para retratar a resistência à ditadura. A bateria, num certo trecho do samba, ao falar dos anos de chumbo, usou pratos ao ritmo de marcha militar. Em seguida, tocou uma muzenza (ritmo usado no candomblé). 

“Acho que foi um elemento absolutamente fascinante, porque a marcha militar vem, mas é a muzenza que prevalece. O tambor estava contando uma história”, analisa ele.

A escola obteve a pontuação máxima em todos os quesitos e antes mesmo da nota decisiva, a diretoria já chorava e cantava o samba da escola: “Brasil, chegou a vez/ De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. A rainha de bateria Evelyn Bastos comemorou o desempenho do enredo. “Passamos a mensagem que a gente queria. A valorização da nossa raça”, disse.

Na celebração, diretores da agremiação gritaram o nome do deputado estadual e ex-presidente da escola, Chiquinho da Mangueira, que está em prisão domiciliar após ser investigado num desdobramento da Lava Jato no Rio.

O segundo lugar do Carnaval do Rio ficou com a Viradouro, que contou histórias dos livros infantis. Este ano marcou a volta da escola ao Grupo Especial. 

A tradicional Imperatriz Leopoldinense foi rebaixada. Conhecida por seus luxuosos desfiles até o início dos anos 2000, neste ano defendeu um enredo sobre a relação das pessoas com o dinheiro. A outra escola rebaixada foi a Império Serrano, que cantou na avenida a famosa “O Que É, o Que É”, composição de Gonzaguinha.

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