Descrição de chapéu Alalaô

De Vargas a Bolsonaro, marchinhas florescem com crises políticas

Conservadorismo, noticiário e polarização inspiram compositores e popularizam gênero no Carnaval

Fabrício Lobel
São Paulo

É uma tradição brasileira quase tão antiga quanto a própria República. Foi assim quando Getúlio Vargas se equilibrava no poder ou quando o japonês da Federal chamou atenção nas prisões da Lava-Jato. O assunto pode ser sério, mas chega o Carnaval e o brasileiro compõe uma marchinha para tirar sarro de tudo e de todos.

E neste ano, não poderia ser diferente, quem está na mira é o presidente, Jair Bolsonaro (PSL). 

Eleito com uma pauta assumidamente conservadora, o presidente mantém uma agenda que parece ser oposta ao espírito transgressor e satírico do Carnaval.

Mas é justamente o conservadorismo e o discurso moral que inspiram uma série de marchinhas irônicas e críticas nesse Carnaval de 2019. 

A família Passos, em Curitiba, há semanas perdeu a conta de quantas visualizações tiveram os seus vídeos com marchinhas nas redes sociais.

A origem do sucesso foi quando Isis, 40, a irmã mais velha da família, conversava com a mãe, Marília, 76, sobre discursos raivosos na internet. Elas então decidiram transformar essa matéria prima em piada, em marchinha.

Assim nasceu a irônica “A Culpa é do PT”, com versos como “nossa bandeira jamais será vermelha”, “vamos acabar com isso daí” e “bandido bom é bandido morto”.

“O conteúdo teórico a gente tem de graça, é só montar e aparar as rimas”, explica Isis sobre a composição que já foi vista mais de 2 milhões de vezes —a família perdeu a contabilidade quando a gravação da marchinha ganhou links alternativos e se multiplicou.

Desde então, a família já fez marchinhas criticando a reforma da Previdência, tirando sarro de Flavio Bolsonaro e dos eleitores que chamam de pobres reaças de direita.

Um dos autores do hit “Japonês da Federal”, o advogado Thiago Souza tem a sua tese sobre o interesse dos carnavalescos pelo novo governo.

“Esse é um governo supercontraditório, desde a retórica da moral, com o assunto dos laranjas, do Queiróz, por si já é uma piada. Se governar um país não fosse uma coisa séria, seria muito divertido”.

Para ele, quanto mais um governo for inflexível em suas posturas e agendas, seja ele de direita ou esquerda, mais sujeito à sátira estará. “A narrativa conservadora é muito boa de virar piada. Porque ela é muito inflexível. E eu acho que os progressistas têm um comportamento muitas vezes conservador. Por isso que viram piadas boas também”.

Depois de décadas dedicadas à música, recentemente o maestro João Roberto Kelly, 80, se enveredou pelas marchinhas de temas políticos. 

Compositor de "Mulata iê-iê-iê” e “Cabeleira do Zezé”, ele escreveu os versos “Alô, Alô Gilmar, eu tô em cana, vem me soltar”, para o Carnaval de 2018. A letra é uma homenagem a uma certa fama do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, de ser generoso com investigados por corrupção.

“A marchinha é satírica por natureza e a política vem se tornando um tema muito fértil para fazer sátira. Isso é muito bom, pois é diferente do tempo da ditadura, que a gente não podia fazer. Uma marcha do Gilmar, a gente não poderia fazer”, observa.

Neste ano, ele aposta na polêmica recomendação da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, de que meninas vestem rosa e meninos, azul. Na marchinha, ele diz querer provocar confusão na folia e sair de sunga rosa, enquanto a mulher, sairá de biquíni azul.

Para o escritor e historiador Luiz Antonio Simas, não é de hoje que o brasileiro usa o Carnaval para falar de política. Embora não fossem marchinhas, há registros de canções carnavalescas durante a campanha abolicionista no Império.

“O Brasil foi um país que fechou à maior parte de sua população os canais formais do exercício da cidadania. Assim, a música popular acaba sendo um campo onde as camadas populares encontram o caminho para expressar os seus anseios, a maneira como encaravam o cotidiano, as relações com os fenômenos políticos”, analisa.

Há cem anos, o Carnaval de 1919 entrou para a história como um dos mais animados, ainda que um dos principais temas da festa tenha sido o surto de gripe espanhola, que meses antes ainda matava milhares no país.

Em 1929, às vésperas de uma baita crise econômica mundial, o folião brasileiro pulou o Carnaval debochando da própria miséria.

Anos depois, outra marchinha provocou o candidato à presidência Artur Bernardes, chamando-o pelo apelido de seu Mé, em referência à sua suposta cara de bode.

Quando o Brasil decide entrar na Segunda Guerra Mundial, pelas ruas se cantavam marchinhas que tiravam sarro de ninguém menos que Adolf Hitler, que era chamado de palhaço.

Nessa mesma época, Getúlio Vargas soube bem usar o gênero para encomendar jingles e incentivar composições que ajudassem a formar um novo projeto de país, sob a ditadura do Estado Novo.

Quando Getúlio tentava se agarrar à cadeira da Presidência, em seu primeiro governo, uma marchinha de Carnaval antevia que mesmo que o gaúcho caísse, um bando de puxa-sacos se manteria no governo. 

 

Décadas depois, em outra ditadura, no governo militar, a marchinha era mais usada para tentar criar a sensação de um país ufanista do que criticar os militares do poder —o gênero da música de protesto era outro.

Apesar disso, no processo de abertura da ditadura, surgiu no remoto Carnaval de Brasília um bloco chamado Pacotão dedicado a criticar o governo. Desde 1979, é vasta a lista de políticos alvos de marchinhas jocosas.

E para quem acha que 2019 começou num clima trágico e pouco convidativo ao Carnaval, os compositores e foliões parecem discordar.

“Os períodos mais problemáticos para a marchinha foram os períodos em que aparentemente tudo estava bem. É paradoxal”, explica Simas. “O Carnaval não é mais intenso porque as coisas vão bem. Ele é mais intenso exatamente pela razão contrária. É como um mecanismo de sobrevivência, de conexão com o mundo, com o lugar, com a cidade. No momento mais crítico… o bloco está na rua”.

É mais ou menos isso o que pensa Thiago Souza. “A gente está saboreando uma sorte de tragédia acho que inédita na nossa vida. E o humor serve para a gente refletir não só de uma forma traumática. Se libertar por meio de humor, sátiras, ironias fica mais fácil. Não tem que se sentir culpado por a gente encontrar mecanismos para extravasar esses sentimentos”, defende. 

“Esse ano, [tem sido] um Carnaval sem graça para a gente. E ao mesmo tempo, eu acho que nunca houve uma movimentação tão grande nas ruas, uma adesão aos blocos. O ser humano é sensorial e o brasileiro, mais ainda. A gente precisa sentir na pele a alegria”. 

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