Dengue avança, e país já registra 229 mil casos neste ano

Dados apontam 62 mortes; Tocantins, Mato Grosso do Sul e Acre têm epidemia

Natália Cancian
Brasília

Após trégua, a dengue voltou a avançar neste ano em diferentes regiões do país. Dados de um novo boletim do Ministério da Saúde, divulgado nesta segunda-feira (25), mostram que o Brasil já soma 229.064 casos da doença até 16 de março.

Para comparação, no mesmo período do ano passado, foram 62.904 casos, o que representa um crescimento de 224%. 

O total de registros neste ano, porém, ainda é menor em comparação ao último em que houve epidemia da doença —caso de 2016, quando houve 857.344 apenas de janeiro a março.

Ainda assim, o aumento de casos de dengue tem preocupado autoridades de saúde. A avaliação é que, após quase três anos com registros em queda, é necessário voltar a preparar equipes de saúde para o avanço da doença, cujo diagnóstico rápido é fundamental para evitar o agravamento dos casos.

“O Brasil vem de dois anos seguidos com baixa ocorrência de dengue, portanto é necessário que os profissionais de saúde estejam atentos a esse aumento de casos. Quanto mais cedo o paciente for diagnosticado e der início ao tratamento, menor o risco de agravamento da doença e de evoluir para óbito”, afirma o secretário de vigilância em saúde do ministério, Wanderson Oliveira.

Somente neste ano, já foram confirmadas 62 mortes pela doença, um aumento de 67% em comparação ao mesmo período de 2018. Deste total, 31 foram registradas em São Paulo, estado que já soma 83 mil casos de dengue. No mesmo período de 2018, foram 3.734 casos.

Segundo Rodrigo Said, coordenador do programa de dengue do Ministério da Saúde, ao menos 36 das 62 mortes ocorreram em pacientes idosos e com doenças crônicas, fatores que podem colaborar para o agravamento do quadro. Ele reforça a necessidade de ter atenção aos sinais de "alarme" junto aos demais sintomas da dengue, como dor abdominal intensa, sonolência, entre outros. 

Atualmente, a taxa de incidência de dengue no país é de 109 casos a cada 100 mil habitantes, tida como moderada. Em nota, o ministério informa que, apesar do aumento expressivo nos registros, a situação ainda não é considerada uma epidemia.  Para que isso ocorra, é preciso que haja um forte aumento de casos e incidência considerada alta, em geral superior a 300 casos por 100 mil habitantes.

Três estados, porém, já se encontram nesse cenário: Tocantins, Acre e Mato Grosso do Sul. Apesar de ter incidência semelhante, o estado de Goiás não estaria neste quadro por ter tido queda nos registros em relação ao ano passado.

Outros quatro estados apresentam situação considerada preocupante por terem incidência superior ao padrão nacional, entre 116 casos a cada 100 mil habitantes e 261 casos a cada 100 mil habitantes. São eles: Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Distrito Federal.

Fatores para o avanço

De acordo com o ministério, o avanço da doença pode ser explicado por vários fatores, em especial pela maior circulação do subtipo 2 do vírus da dengue –entre quatro possíveis.  Dados de exames feitos pela pasta em 608 amostras positivas para dengue apontam que 85% dos casos são de dengue tipo 2.

Nos últimos anos, o subtipo com predominância em circulação foi o tipo 1, além do 4 em algumas regiões. Frequente em análises no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o tipo 2 circulou com maior força pela última vez em 2008, o que indica a possibilidade dehaver pessoas suscetíveis ao vírus atualmente em circulação. 

 "A cada infecção de dengue a população desenvolve imunidade para aquele tipo específico. Há bastante tempo não tínhamos circulação predominante do tipo 2, que tinha um padrão de circulação bastante tímido", afirma Said, que lembra que há locais também com circulação de outros sorotipos.

No último ano, levantamento feito por prefeituras já apontava aumento no número de cidades com alta infestação do mosquito Aedes aegypti. A chegada do verão, com calor e chuvas, torna o clima favorável à reprodução do mosquito transmissor. "É um cenário que nos preocupa. Temos circulação de diferentes tipos de vírus e todas as condições favoráveis a essa transmissão", reforça o coordenador. 

Para Said, a melhor forma de prevenção ainda está no combate aos criadouros do mosquito. Neste ponto, levantamentos do Ministério da Saúde mostram que ele continua por perto: 80% dos criadouros são intradomiciliares, ou seja, que ficam dentro das casas, como calhas, garrafas e caixas d'água destampadas. 

"Precisamos ver se a calha está limpa, se a caixa de água está fechada ou se há outros espaços com acúmulo de água. Não é apenas tirar a água, às vezes é preciso passar uma esponja na borda. Normalmente o mosquito deposita seus ovos na borda do recipiente, e quando tem o contato com a água, há a eclosão desses ovos", afirma.

Zika e chikungunya

Enquanto a dengue cresce no país, dados apontam redução de casos de chikungunya no país, com 12 mil registros até março deste ano, contra 23 mil no mesmo período de 2018.
 

Já a zika teve pouca variação até o momento nos dados: foi de 1.908 para 2.062 casos. Alguns estados como o Tocantins, porém, tem registrado avanço das três doenças em conjunto --o que impõe um desafio ainda maior para equipes de saúde.

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