Depoimento: Lembrança de uma escola em dia de terror

Ex-aluno relata experiências da época em que estudou na Raul Brasil

Alexandre Benedito Lopes
São Paulo

A primeira lembrança que me vem da época em que comecei os meus estudos na Raul Brasil, nos anos 80, era de ficar perfilado junto com as outras crianças para jurar bandeira, prática esquecida, que voltou há pouco tempo no país com discussão e polêmicas. Eu morava a um quarteirão da escola que é considerada uma das melhores da cidade de Suzano.

A entrada principal sempre me chamou a atenção por ter portas grandes envidraçadas. Do lado de fora, via a movimentação dos alunos e professoras em seu vai e vem nos corredores. Do lado direito da entrada ficava a diretoria. Os funcionários da época sorriam quando eu olhava para eles, já que a maioria das pessoas que trabalhavam na escola moravam no mesmo bairro que eu, o Jardim Imperador.

Flores colocadas em frente da escola Raul Brasil, em Suzano, após atentado
Flores colocadas em frente da escola Raul Brasil, em Suzano, após atentado - Eduardo Anizelli/Folhapress

Após a entrada, chegava-se ao pátio, meu lugar preferido, onde encontrava os amigos para brincar de pega-pega e esconde-esconde. Quando o sinal tocava, corríamos para formar a fila para entrar na sala de aula. Eu sempre dei sorte com meus professores. O professor Antônio, que dava aula de português, ensinava gramática a partir de desenhos com árvores. Adorava aquilo. A professora de ciências usava óculos com formatos redondos e que cobriam quase todo o seu rosto. A maioria da classe achava engraçado. Mas a aula que mais gostava era de educação artística.

Aliás, todos os professores do Raul Brasil eram um show. Sempre se preocupavam com o futuro dos alunos. Davam bons conselhos, conversavam quando percebiam alguma coisa de errado com os alunos e nos faziam rir com suas histórias de vida.

No intervalo, corria para a quadra para jogar bola ou basquete. Também aproveitava para bagunçar, já que não era santo. Alguns inspetores de alunos já me conheciam, mas sempre havia respeito entre ambos. Por mais que eu aprontasse, parava na primeira bronca.

Os anos passaram, as melhorias e tecnologias chegaram à Raul Brasil. Minha despedida da escola chegou. E o que ficou foi a saudade dos amigos, professores e de um dos melhores institutos de educação que passei.

Agora, infelizmente, as boas lembranças vieram à tona diante do terror que acompanhei pelas notícias na televisão e informações na internet. A escola sofreu um ataque sem precedentes, que tirou a vida de oito pessoas. Algumas das vítimas eu conhecia de vista de quando visito meu pai e a família do meu irmão no Jardim Imperador.

Muitos dos alunos eu vejo passar diante do barzinho em que tomo uma cerveja com amigos. Algumas foram vítimas deste crime. Um dos atiradores, Guilherme Taucci, 17, vi poucas vezes pelo bairro, mas não o conhecia pessoalmente. O jovem aparentava ser uma pessoa calma, quase não falava. Já a sua mãe é conhecida por ser usuária de drogas.

Acostumado a ler e ver este tipo de notícia pela internet ou pela televisão em outros países, fiquei  apavorado e sem ação diante do que estava acontecendo na minha escola, onde meus familiares estudaram e filhos de amigos ainda estudam. As imagens de crianças correndo, pulando muro e correndo pelas ruas do bairro onde cresci não sai de minha cabeça. Poderia ter acontecido com um dos meus filhos.

Alexandre Benedito Lopes, ex-aluno da escola estadual professor Raul Brasil

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