Discussão sobre política na escola foge à regra da polarização, mostra documentário

Debate sobre o filme Eleições, promovido pela Folha, contou com presença da ex-deputada Manuela DÁvila

São Paulo

Música no intervalo, parceria com bibliotecas de outras escolas e novos bebedouros. Enquanto partidos políticos se aqueciam para a disputa eleitoral no início de 2018, essas eram as propostas dos alunos que concorriam ao grêmio estudantil da Escola Estadual Doutor Alarico da Silveira, na Barra Funda, em São Paulo.

Todo o processo é mostrado em “Eleições”, documentário que chegou aos cinemas na última quinta-feira (14). Alice Riff, diretora do longa, buscava entender como os jovens estavam se articulando politicamente no ambiente escolar e se surpreendeu. “Quando comecei esse projeto, pensei que teria uma chapa de direita e outra de esquerda. Descobri que não era essa a discussão que estava dentro da escola.”

Documentário "Eleições", de Alice Riff
Cena do documentário "Eleições", de Alice Riff - Divulgação

Em debate realizado pela Folha na última sexta-feira (15), Riff contou que o projeto partiu da ideia da sub-representação do jovem na política. “O jovem não está interessado na política porque quando vê esses homens com cabelo grisalho, brancos, barrigudinhos e de terno, pensa ‘não tem nada a ver comigo’”, diz Riff.

“Muitos ali na escola são jovens aprendizes na Câmara dos Vereadores, mas a maioria só fica na porta e nem conhece algum vereador”, completa.

Do debate, participou também a ex-candidata à vice-presidência Manuela D’Ávila (PC do B). "O que mais chamou minha atenção no documentário foi como eles são melhores que os políticos”, disse, ao destacar que a existência de alunos gays e evangélicos na disputa pelo grêmio não foi o enfoque das discussões no colégio.

“A escola é um lugar mágico porque é a sociedade inteira. É bonito ver a naturalidade das coisas. O mundo em que eu vivo agora, da política, tem tanta agressividade, desrespeito e ódio ao diferente que, para mim, isso é o que mais grita no filme”, afirma D’Ávila, que foi deputada federal.

Lyvia Gomes, secundarista que aparece no longa como uma espécie de youtuber que registra em vídeo alguns dos acontecimentos do processo eleitoral, apontou que o filme foi um incentivo para que os alunos demonstrassem suas ideias publicamente. “Mesmo sendo adolescentes, a gente se importa. Todo mundo merece um pouco mais de consideração”, disse.

Riff contou que, no processo de edição, houve preocupação em inserir aqueles que não participaram das chapas. “Existe um monte de gente no fundão que são alunos problemas ou desperdiçados e é muito importante olhar para eles. Quando damos sentido para a escola e para todos os conceitos que podem ser trabalhados nela, vemos uma juventude muito potente.”

A ex-deputada apontou ser necessário mais suporte e investimento direcionados aos professores para que sejam minimizados problemas em sala de aula. “No Brasil, qualquer coisa que aconteça, a gente joga para a escola. Nosso sonho é que a escola resolva, sem ter estrutura pra isso. Professor hoje faz barricada para não entrar gente atirando. Não só nesse atentado em Suzano, mas todos os dias. A escola acaba virando o templo dos desencontros do Brasil”, afirma.

A exibição e o debate do filme ocorreram no Espaço Itaú Frei Caneca, em uma sessão lotada. A mediação ficou a cargo do jornalista da Folha Fábio Takahashi.

O filme foi patrocinado por edital do Videocamp, plataforma online do Instituto Alana que oferece um catálogo de filmes para exibição em sessões públicas e gratuitas. Nas próximas semanas, entrará no circuito de cinema popular Spcine.
 

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