Em 5 minutos, PM recebeu 69 ligações pedindo socorro em Suzano; ouça

Adolescentes choravam e pediam socorro enquanto fugiam de agressores

Jairo Marques Rogério Pagnan
São Paulo

​Vozes em pranto, angustiadas e desesperadas formam um conjunto de 69 ligações para os serviços de emergência da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros pedindo socorro na escola Raul Brasil, em Suzano, na Grande SP, na última quarta-feira (13).

Nos áudios, gerados nos primeiros cinco minutos do ataque, é possível ouvir gritos e respirações ofegantes. 

Um deles, ao qual a Folha teve acesso, dura 26 segundos e é de uma adolescente que via o ataque e, ao mesmo tempo, tentava fugir dos atiradores.

Após ouvir a fala “Bombeiros emergência” da atendente, a jovem fala enquanto chora: “Olha, eu preciso de ajuda, na escola Raul Brasil. Entrou um menino atirando em todo mundo, eu preciso de gente aqui, pelo amor de Deus, tem um monte de gente sangrando. Agora!”, pede ela.

Segundo o comando da PM, os primeiros policiais chegaram ao local dois minutos após o início dos ataques. 

 

Uma equipe de três policiais já havia sido chamada após o empresário Jorge Antonio Moraes, proprietário de uma revendedora de carros e tio de um dos atiradores, Guilherme Taucci Monteiro, 17, ter sido baleado. O ataque aconteceu a poucos metros da escola.

“Falaram para a gente no lava-jato que seria um rapaz jovem, vestido de preto, com máscara de caveira no rosto e que tinha empreendido fuga em um carro branco”, disse. “Nós estacionamos atrás do veículo branco, que estava em frente à escola, e adentramos”, afirmou sargento Anderson Luiz Camargo, 44, que chegou à escola quando os adolescentes, alunos do colégio, ainda escapavam desesperados pelo portão principal em meio a gritos e choros.

A polícia diz acreditar que o atendimento rápido da PM evitou que a tragédia fosse ainda maior

Em um segundo áudio, com a polícia já ciente do ocorrido e com equipes já em direção da escola, uma garota com a fala bastante ofegante também pede socorro imediato. A ligação dura 15 segundos.

“É... moça [toma fôlego, como se estivesse correndo], moça, tá tendo um tiroteio aqui na Raul Brasil”, diz.
A atendente responde : “Tá, já foi cadastrada a ocorrência e já tem viatura a caminho do local, tá bom?”. A menina responde sussurrando: “tá bom”.

O centro de operações da Polícia Militar de São Paulo recebe, em média, 80 mil chamadas diárias. O atendimento dos chamados ocorre, em grande parte das vezes, instantaneamente, sem espera.

Os serviços de emergência em São Paulo funcionam de maneira integrada pelo telefone 190, inclusive no mesmo espaço físico. Assim, tanto bombeiros como o policiamento podem ser acionados por esse número.

Atendentes civis, que passam por treinamentos específicos, são responsáveis por receber as chamadas e são supervisionados por sargentos da PM.

Os profissionais precisam manter a voz calma, falar pausadamente e evitar externar emoções.

“Se hoje tivermos uma catástrofe, uma tragédia, uma explosão, por exemplo, eu conseguiria atender, num estalar de dedos, 120 pessoas ao mesmo tempo. É um protocolo do Corpo de Bombeiros”, afirma o comandante-geral da PM, Marcelo Vieira Salles.

“O sucesso é estar preparado para casos de todo tipo. A maior lição [do massacre de Suzano] é que a gente deve continuar com o espírito institucional de servir, não importam o horário, as condições climáticas, a natureza dela.”

Um terceiro áudio obtido pela reportagem indica a ligação de uma pessoa adulta, voz feminina, que não estaria dentro da cena do crime, mas ouvindo os tiros e gritos dos alunos do lado de fora. A conversa dura 16 segundos.

“Oi, bom dia. Tá tendo um tiroteio aqui na escola Raul Brasil...”, afirma a pessoa.

O atendente prontamente informa: “Raul Brasil, senhora? Já estamos cientes da situação e a viatura já está se encaminhando para o local o mais rápido possível, tá bem?”, afirma o rapaz, com certa comoção.

O massacre de Suzano deixou oito pessoas mortas, além dos dois agressores, Guilherme Taucci Monteiro, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25, e 11 pessoas feridas. Segundo a polícia, após perceberem a chegada de uma equipe da força tática, Guilherme teria atirado em Luiz e depois se matado com um tiro na cabeça.

 

Ligação 1:

Ligação 2:

Ligação 3: 

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