Escritor recupera passagens esquecidas da história negra em rede social

'Threads' deram origem a livro, e autor já soma mais de 74 mil seguidores

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Em junho de 2018, o publicitário Ale Santos, 32, resolveu contar no Twitter a história de Leopoldo 2º (1835-1909), rei da Bélgica, que patrocinou um genocídio com número estimado entre 8 e 10 milhões de pessoas no Congo, na virada do século 19 para o 20. 

Com dez publicações limitadas aos 280 caracteres da rede social, o escritor de Guaratinguetá, cidade paulista do Vale do Paraíba, narrou a exploração comercial empreendida pelo monarca, como ele mandava decepar membros dos trabalhadores que não batiam suas metas ou estuprar mulheres, degolar homens e queimar vilas que não aceitavam suas regras. 

Essa foi a primeira “thread” —nome usado para publicações em sequência na rede social— de Ale que se tornou viral. A primeira ponta dela já passou de um milhão de visualizações e tem mais de 16 mil curtidas. 

A ideia veio pouco tempo antes, quando ele escreveu sobre a relação entre herança epigenética e escravidão, e conseguiu 20 republicações. 

Com a história do rei genocida, porém, ele se obrigou a colocar o celular no silencioso por alguns dias. “Foi quando eu vi que [esse meio] era poderoso o suficiente para contar mais narrativas”, diz. 

O escritor e publicitário Ale Santos fala para uma plateia, sentado em uma cadeira, com plantas atrás dele
O escritor e publicitário Ale Santos, que conta em 'threads' no Twitter passagens esquecidas da história negra - Arquivo pessoal

As threads sobre personagens deixados de fora pela história oficial trouxeram mais de 60 mil pessoas a seguir o trabalho do publicitário na rede social no último ano (ao todo, ele tem mais de 74 mil seguidores). O nome dele lá: @savagefiction

O tema foi o mesmo que deu o título à Mangueira de campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (6), com o enredo “Histórias para ninar gente grande”

“Não aconteceu esse movimento de eu estar estudando a história tradicional e, de repente, ver ‘opa, tem uma rachadura aqui’. Eu fui descobrir a lacuna que existe [sobre histórias negras] recentemente, com o meu Twitter. Não sabia que elas iam causar uma convulsão tão grande na rede social”, diz ele. 

Desde criança, Ale lia tudo que encontrava, mas especialmente livros de história e de ficção histórica como J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”. Quando matava aula na escola, ia para a biblioteca ler mais.

A busca por personagens da história afro-brasileira, porém, veio mais tarde, assim que começou a perceber sua própria identidade, como jovem negro, trabalhando no mercado elitista da publicidade. 

A primeira história afro-brasileira que ele publicou foi a de Zacimba Gaba, princesa africana de Angola que foi escravizada no Brasil, envenenou seu senhor e se tornou líder quilombola. 

Em seguida, escreveu sobre Benedito Meia-Légua, quilombola que convenceu os escravagistas de que era imortal e criou uma mística em torno de si; Tereza de Benguela, conhecida como a rainha dos quilombos de Mato Grosso; Chico Rei, o monarca negro de Ouro Preto; e sobre a repressão a movimentos negros na ditadura brasileira.

Algumas publicações ficam prontas em duas horas, outras levam mais tempo, pelas dificuldades em encontrar dados e registros da historiografia negra no Brasil, segundo ele.

“Foi nas últimas décadas que surgiram historiadores e movimentos que resgatam essas histórias. A grande parte estava presa na oralidade de algum vilarejo. Escrevi sobre a Balaiada, por exemplo, e só quando fui ao Maranhão encontrei uma historiadora do movimento negro que escreveu sobre Negro Cosme e me passou material”, conta. 

As histórias contadas nas redes sociais sairão em um livro próprio, com mais corpo e referências bibliográficas. O título é “Rastros da Resistência”, pela editora Panda Books, e a pré-venda começa nesta segunda (11). 

Com o sucesso das redes, o escritor descobriu também que contar a história é questão política. Com os seguidores interessados em aprender vieram os “haters” e as ameaças. As mensagens o chamam de “mimizento”, “esquerdista”, o acusam de “querer dividir o país”. 

Para ele, porém, recuperar histórias apagadas em um país que celebra imigrantes europeus, mas tem uma população negra que mal consegue traçar mais de quatro gerações na árvore genealógica, é uma forma de criar identidade.

“Desconstrói a ideia de que você descende apenas de escravos, você passa a descender de reis, intelectuais, guerreiros, rainhas, imperatrizes, grandes estrategistas, e passa a ter toda uma identidade que reconstrói o imaginário também”, diz. 


CINCO 'THREADS' DE ALE SANTOS

1. O racismo científico no Brasil pós-abolição: ideologias racistas e o plano eugenista que pretendia diminuir a população negra no Brasil

2. Holocausto no Congo: como o rei belga Leopoldo 2º conduziu o genocídio que matou entre 8 milhões e 10 milhões de pessoas no país africano

3. Os zoológicos racistas: hábito que começou quando Cristóvão Colombo exibiu seis ameríndios na Espanha, em 1492, os zoológicos de nativos das colônias faziam sucesso na Europa. 

4. O espírito de Benedito Meia-Légua: Benedito Caravelas ficou conhecido por liderar negros insurgentes por todo o Nordeste. A estratégia, que fazia com que pensassem que estava em todo lugar, vinha de fazer o líder de cada insurreição se vestir igual a ele. Vem daí a frase "mas será o Benedito?".  

5. O Dragão do Mar: personagem homenageado no samba-enredo campeão da Mangueira, o abolicionista Chico da Matilde liderou uma greve de jangadeiros para impedir o embarque de escravos que seriam vendidos no Ceará

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