Flávio Bolsonaro usa tragédia de Suzano para criticar maioridade e estatuto do desarmamento

Senador foi às redes sociais pouco antes de seu pai, Jair Bolsonaro, se manifestar

Daniel Carvalho
Brasília

​O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) usou a tragédia ocorrida em uma escola em Suzano (SP) nesta quarta-feira (13) para criticar a maioridade penal e o estatuto do desarmamento.

"Meus sentimentos a todos os familiares das vítimas covardemente assassinadas no colégio em Suzano. Mais uma tragédia protagonizada por menor de idade e que atesta o fracasso do malfadado estatuto do desarmamento, ainda em vigor", disse o senador às 15h52, sete minutos antes de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro (PSL), ir às redes sociais falar sobre o assunto.

"Presto minhas condolências aos familiares das vítimas do desumano atentado ocorrido hoje na Escola Professor Raul Brasil, em Suzano, São Paulo. Uma monstruosidade e covardia sem tamanho. Que Deus conforte o coração de todos!", escreveu Bolsonaro, após mais de seis horas de silêncio.

Oito pessoas, sendo cinco alunos e duas funcionárias morreram em um ataque a tiros na escola estadual Professor Raul Brasil em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, na manhã desta quarta-feira. Um empresário foi morto pela mesma dupla momentos antes do atentado. 

Segundo a Polícia Militar, quatro estudantes e dois funcionários foram mortos no local. Um quinto aluno chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Antes do ataque à escola, um empresário também foi vítima da dupla e morreu depois de ser encaminhado ao hospital.

Os disparos foram feitos quando dois homens atiraram contra os alunos e, em seguida, se mataram. Eles foram identificados como Luiz Henrique de Castro, 25, e Guilherme Taucci Monteiro, 17. 
Seguidores de Flávio no Twitter criticaram a manifestação do senador.

"Era melhor não ter falado nada", escreveu Alessio Esteves.

"Presta solidariedade, mas quer defender a bandeira política, francamente que vergonha desses políticos, de todos os políticos", escreveu uma internauta que se identifica apenas como Fabiana.

A tragédia reacendeu no Congresso a discussão sobre dois projetos polêmicos.

Pelo lado governista, voltou-se a discussão da proposta, segundo a qual jovens menores de 18 anos, mas maiores de 16 anos, poderão ser condenados pela prática de crimes graves, já foi aprovada na Câmara e está parada no Senado desde 2015.

Pelo lado da oposição, pediu-se celeridade na apreciação de um decreto legislativo que susta o decreto do presidente Jair Bolsonaro que facilita a posse de armas.

O líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), começou a articular a apresentação de um requerimento de urgência para que a proposta de diminuir a idade para que um jovem possa ser condenado seja votada rapidamente.

"Está parado. É só pautar. Vamos para o voto. Não pode ter assunto que o Senado desconheça desistir. Vamos para o plenário, colocar argumentação, expor para a sociedade brasileira", disse Olímpio à Folha.

O senador defende com outros colegas que o Senado priorize pautas de segurança e corrupção, enquanto a Câmara trata da reforma da Previdência. Segundo Olímpio, o grupo já selecionou 21 projetos que podem ser apreciados.

O assunto interrompeu as votações na CCJ (comissão de Constituição e Justiça) na manhã desta quarta-feira com informações ainda desencontradas. No momento da sessão, por exemplo, acreditava-se que os dois atiradores eram menores de idade.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) disse que o presidente Jair Bolsonaro estimulou a violência durante as eleições e ao editar um decreto que facilita a posse de armas.

"Fiz campanha de rua em rua, de porta em porta. A coisa que mais me assustava era ver crianças fazendo o gesto de que estavam com uma arma na mão. O gesto da violência, o gesto e a forma de como resolver as suas pendências. Portanto, não podemos descartar que o estímulo à violência pela via institucional é um problema que precisamos combater", afirmou o senador, que cobrou também a apreciação de um decreto legislativo apresentado pela oposição, que susta o decreto de Bolsonaro.

"Estamos aqui diante da consequência que é armar pessoas, estimular que resolvam suas diferenças através da eliminação do causador e diante de um decreto que autoriza cada cidadão a ter até quatro armas dentro de casa", disse Carvalho.

O Major Olímpio contestou o colega, afirmando que as armas usadas no crime desta manhã seriam ilegais.

O que tem a ver a cueca com as calças? Esse discurso que eu ouvi agora não tem a menor pertinência", afirmou Olímpio.

"O decreto do Bolsonaro simplesmente garantiu posse legítima [de arma]. Não é nem o porte. Isso nós vamos votar depois. E a população quer isso mesmo. A população botou Bolsonaro como presidente da República para ser um impulsonador de garantias para o cidadão, para que não tenhamos tragédias desta natureza", afirmou o líder do partido do presidente da República.

"Se cada cidadão brasileiro pode ter na sua residência quatro armas, como prevê esse decreto apresentado pelo presidente da República, a chance de nós termos episódios como esse cresce enormemente", disse o senador Humberto Costa (PT-PE).

"Não é exatamente ampliando a possibilidade de as pessoas terem armas, a posse de armas, que nós vamos acabar com a posse ilegal e com a posse irregular", disse Costa.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), manifestou-se apenas por uma postagem no Twitter.

"É com perplexidade que recebi, a notícia do tiroteio no Colégio Estadual Raul Brasil, em Suzano-SP.  Eu me solidarizo às famílias das vítimas e espero que as reais causas dessa tragédia sejam descobertas", afirmou.

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