Descrição de chapéu Alalaô Rio de Janeiro

Foliões à procura do Só Te Pegando caem no evangélico 'bloco da Michelle Bolsonaro'

Ambulantes lamentavam que tentar vender cerveja era um desperdício de tempo

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

“Não entendi, é o bloco da Michelle Bolsonaro?”

Não exatamente, mas a pergunta feita pela esteticista Amanda Márcia, 24, fantasiada de “freira pecadora”, não era de todo descabida.

Ela caiu de paraquedas no Cheio de Amor, cortejo da carioca Igreja Batista Atitude, frequentada pela primeira-dama brasileira —que em 2018 lá estava, junto com a ala de surdos da agremiação evangélica, ajudando a traduzir para Libras hinos carnavalescos de pegada gospel (o deste ano propõe “lançar para longe a tristeza” e “abraçar a verdadeira paz” que é Jesus Cristo).

 

Amanda ouviu “de orelhada” que Michelle passaria ali (não passou). Mas a verdade é que, como tantos outros foliões, ela estava mesmo era perdida, porque seu destino era outro: o Só Te Pegando, um bloco vizinho que também saiu neste sábado (2) na orla da Barra da Tijuca.

Com a confusão, diabinhas, freirinhas, piratas e gente seminua em geral aproveitavam para tirar uma “foto zoeira” na lateral do trio elétrico gospel, onde se lia “Jesus, o verdadeiro amigo”.

Onde os foliões viam piada os fiéis da Atitude envergavam oportunidade. Foram à beira da praia, afinal, levar a palavra de Deus na mais devassa das festas brasileiras.

“Você nunca viu um bloco que ora antes? Pois é, vai ver hoje”, anunciou em cima do trio o líder da igreja, Josue Vallandro Junior, antes de cumprir o prometido e começar uma pregação.

Ainda em solo, o pastor falou à Folha sobre o estigma que crentes carnavalescos dentro do próprio meio evangélico —afinal, mesclar-se à folia pagã não seria muito de Deus.

Mas Jesus, argumenta o pastor, “ia aonde estavam” os pecadores. “A igreja, no Carnaval, se refugiava acampamentos, retiros, enquanto a cidade estava entregue à bebedeira, à prostituição, às drogas, à loucura.”

Diz Josué: mais vale estar no meio do furdunço para tentar resgatar almas. “A gente vem aqui mostrar não é uma curtição que vale a pena”, essa do “Carnaval mundano”. 

Claro que há peculiaridades numa folia evangélica. Ambulantes, por exemplo, lamentavam que tentar vender cerveja ali era um desperdício de tempo. E a maioria vestia “Abadeus”, um abadá com o nome da igreja.

Parte da campanha evangelizadora incluía a distribuição de 10 mil copos de água (no rótulo vinha escrito “Jesus: a fonte da vida”), o livrinho “Pão Diário”, com mensagens bíblicas, e a “ficha de decisão”, que alguém que desejase se converter ali mesmo podia preencher —além de pedir nome e telefone, era preciso marcar se a pessoa aceitou Jesus ou não.

Integrantes do Bloco Evangélico Cheio de Amor, na avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro
Integrantes do Bloco Evangélico Cheio de Amor, na avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress

Gestora de comunicação da Atitude, Raquel Lima, 38, estima que, em 2018, o bloco tenha atraído 1.300 pessoas, número ainda distante de ser alcançado neste ano (até 16h30 havia pouco mais de uma centena na rua).

A pensionista Denise Ramiro, 57, está com um coração que a cobre frente (onde se lê “abrace o amor”) e verso  (“... de Deus”). Ela conta que já se vão 20 Carnavais desde que abriu seu coração “ao Senhor”. 

“Somos muito criticados pelos que acham que o Evangelho não precisa se misturar ao mundo. Mas eu pulava Carnaval, beijava no boca, até que em 1999 Jesus me resgatou no banheiro do motel. É, Ele me chamou lá dentro. Hoje o amor de Deus me preenche. Já bebi, já curti isso aí que eles estão curtindo, sei que isso não é alegria.”

Logo ao lado, uma adolescente de meia arrastão, maiô e a tiara da Jenifer, musa do hit de Gabriel Diniz que fala sobre encontrar no Tinder a mulher que “faz umas paradas”.

“Isso não tá com cara do bloco da pegação, não, gente”, ela diz a amigos, semblante entre decepção e curiosidade. Saiu com uma água “de Jesus” de brinde.

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