Descrição de chapéu Alalaô Rio de Janeiro

Mesmo sem luz na favela, mangueirenses fazem a festa na quadra da escola

Mangueira foi campeã com enredo que fala da luta dos povos negros contra a opressão

Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

A quadra da Mangueira, no pé do morro que leva o mesmo nome na zona norte do Rio, explodiu em festa por volta das 18h, quando a escola foi anunciada campeã do Grupo Especial do Rio.

Uma chuva forte caía no bairro e a festa se deu no local com capacidade para 4.500 pessoas sem luz, iluminada apenas pelos visores e flashes de celular do torcedores.

Com o enredo que prega a resistência dos povos negros e indígenas contra as opressões de colonizadores ocidentais, a festa da vitória transcorria como uma alegoria dos tempos modernos, de como mais de 100 anos após o fim da escravidão essas populações ainda convivem com o descaso da sociedade. 

A luz da região acabou no meio da apuração e bolsões de água e árvores caídas pela chuva dificultavam o acesso ao morro que, por volta das 19h, estava com suas ruas tomadas. Como disse a Mangueira em seu samba enredo vitorioso, a festa era um retrato "da luta que a gente se encontra".

A multidão aplaudiu quando o carnavalesco Leandro Vieira chegou à quadra da escola, uma hora antes da chegada da taça. Torcedores que giravam latas de cerveja no ar, se abraçavam e cantavam o samba a plenos pulmões, receberam o carnavalesco aos gritos de "fica Leandro".

O pavilhão verde e rosa tremulava próximo ao palco, ao lado da bandeira com o rosto de Marielle Franco, vereadora assassinada no ano passado e que foi homenageada pela escola esse ano ao lado de ícones da luta anti-escravagista, como Luiza Mahins e Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, jangadeiro que liderou uma revolta no Ceará, o primeiro estado a abolir a escravidão no Brasil, em 1884.

"A Mangueira deu voz ao povo negro da favela, do asfalto, de todo o país. Ainda estamos em 1.500, vivendo para suprir essas demandas absurdas de uma elite opressora que quer manter a gente nessa posição. Mas não adianta. Aqui a gente faz samba na chuva, no escuro, onde for", disse Ronie Oliveira, 35, um dos seis compositores do samba campeão.

Enquanto Ronie falava à reportagem o público xingou em coro o prefeito Marcelo Crivella (PRB) que tem reduzido a verba oficial para as escolas e não esconde sua falta de simpatia com a festa popular.
 
"O samba é a nossa voz e o Carnaval é a nossa maior manifestação. Esse ano foi muito difícil botar tudo de pé, mas a Mangueira mostrou a força que o povo negro tem para lutar", afirmou o compositor.

O casal de torcedores Diego Fernandes, 31 e Daiane Silva, 30, comemorava cantando o samba-enredo. Eles partilham de visão semelhante a do compositor, de que mesmo com tanto tempo decorrido do fim da escravidão, o povo negro carece de respeito e atenção da sociedade.

"Casou tudo nesse samba. A nossa história está ali contada, toda a luta contra a exploração", diz ele, que tem um bloco de carnaval em Volta Redonda (RJ) inspirado na escola. Seus tios são compositores ligados à escola e desde pequeno ele convive com o samba dentro de casa. 

Ele diz que independente do governo de ocasião, o Brasil precisa acordar para o drama do racismo, que muitos tentam esconder ou simplesmente não discutir. "Quem diz que não existe racismo no Brasil é porque não viveu na pele." 

Às 19h30 a taça já estava na escola, mas a luz ainda não havia voltado. A bateria e o público não pararam um minuto de tocar. Do lado de fora, um mar de cabeças balançava no horizonte totalmente escuro. 

Fernandes disse que a festa não tinha hora para acabar. Sua única certeza era que cedo de manhã será hora de pegar no batente de metalúrgico. "É na luta que a gente se encontra", disse.

Depois de duas horas, às 20h17, a luz voltou no bairro. O público vibrou e a quadra, que já estava lotada, encheu ainda mais de gente.

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