Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

'Não me lembro desse cara', diz Bolsonaro sobre vizinho suspeito de matar Marielle

PM Ronnie Lessa, preso na terça feira (12), tinha casa no condomínio em que presidente morava

Leandro Colon
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira (13) não se lembrar do policial reformado Ronnie Lessa, preso na terça-feira (12) sob suspeita de matar a vereadora Marielle Franco.

Lessa tem uma casa na mesma rua da casa de Bolsonaro em um condomínio fechado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. 

Fachada da casa de Ronnie Lessa, ex-PM preso sob a suspeita de ter matado Marielle
Fachada da casa de Ronnie Lessa, ex-PM preso sob a suspeita de ter matado Marielle - Cátia Seabra/Folhapress

"Não lembro dessa cara. Meu condomínio tem 150 casas", afirmou. Bolsonaro afirmou que há outras pessoas que já foram presas em seu condomínio, incluindo uma mulher por tráfico internacional de droga.

"O que tenho a ver com ele?", questionou Bolsonaro sobre o suspeito do caso Marielle. "Não tem vida social no meu condomínio", disse o presidente.

Ele, contudo, não negou que tenha vindo a conhecer o suspeito, denunciado na véspera por duplo homícídio, de Marielle e do motorista Anderson Gomes, e tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves, que acompanhava as demais vítimas no carro em que foram mortos e sobreviveu.

Segundo Bolsonaro, seu filho mais novo, Jair Renan, 20, não confirmou se namorou uma filha de Lessa. "Meu filho Jair Renan disse naquele linguajar: 'papai, namorei todo mundo no condomínio, não lembro dessa menina".

Na véspera, a polícia havia confirmado que um filho do presidente namorara uma filha do suspeito, mas afirmou que não havia indício de que isso tivesse nenhuma ligação com o crime. 

As declarações do presidente foram dadas em um café da manhã com jornalistas. A Folha foi convidada. Participaram também do encontro Renata Lo Prete (TV Globo), Fernando Mitre (TV Bandeirantes), Mariana Godoy (Rede TV), Carlos Nascimento (SBT), Thiago Contreira (TV Record), Fernando Rodrigues (Poder 360), Carlos di Franco (O Estado de S. Paulo), Leonardo Cavalcanti (Correio Bzasiliense), Rufolgo Lago (Istoé), Paulo Enéias (Crítica Nacional) e Rui Fabiano.

Bolsonaro foi questionado sobre sua posição em relação às milícias que controlam favelas e outras áreas do Rio. "Lá atrás, o povo batia palma", disse. Ele, no entanto, reconheceu que esses grupos, ao longo dos anos, passaram a prejudicar a população.

O presidente voltou a comparar o assassinato de Marielle ao atentado à faca que ele sofreu em setembro, durante a campanha eleitoral. Para o presidente, há muito mais "indícios" no caso dele de que tudo foi premeditado. Bolsonaro declarou ter "convicção" de que o autor do ataque, Adélio Bispo, não agiu sozinho. "Tenho convicção de que não foi da cabeça dele", disse.

O presidente chegou a falar que teve dificuldade em achar seu colete a prova de balas no dia do ataque, mas depois minimizou a declaração, afirmando apenas que não havia usado o equipamento. "Saí sem o colete e não me preocupei", disse.

Ronnei Lessa é acusado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de ter efetuado 13 tiros contra o carro de Marielle, em março de 2018. 

O cerco a ele se afunilou em torno de Lessa há três meses, a partir de uma denúncia que o identificou como o assassino de Marielle e que informou que o carro utilizado pelos suspeitos havia saído do Quebra Mar, região na Barra da Tijuca, dica confirmada posteriormente com imagens.

Uma tatuagem no braço dele também ajudou a ligá-lo com o crime, já que imagens do dia do crime mostram mancha compatível no braço direito do atirador, que estava com a manga dobrada, segundo a promotora Elise Fraga.

A atividade de Lessa na internet também o incriminou, segundo a polícia. Segundo a investigação, Lessa fez inúmeras buscas sobre a vereadora, o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) e a esposa dele antes do assassinato. Procurou também (ainda que em menores quantidades) informações sobre o general Richard Nunes, secretário de Segurança durante a intervenção federal no Rio, delegados e outras autoridades.

Também segundo a investigação, um celular atribuído a Lessa o coloca na região do crime. 

Vive com mulher e dois filhos em um imóvel na rua C, a mesma do presidente dentro do condomínio, onde a média de aluguel por unidade é de R$ 8.000 e o IPTU pela casa de 280 m2 sai por R$ 12,6 mil anuais, fora o condomínio de R$ 2.316. De sua varanda é possível ver o quarto de Laura, 8, filha de Jair e Michelle Bolsonaro.

A família tem dois carros na garagem e uma lancha feita sob encomenda. Um dos filhos pedala uma bicicleta elétrica e coleciona armas "airsoft", que replicam pistolas, revólveres e até fuzis, atiram esferas plásticas e são populares entre adeptos de esportes que simulam ações militares.

Um dos veículos apreendidos na Barra: um Infiniti FX35, modelo que custa em média R$ 120 mil. O achado com Lessa é blindado, branco e acumula 124 multas, a maioria por excesso de velocidade —a primeira delas em 21 de agosto de 2013, no aterro do Flamengo.

O vizinho dos Bolsonaros guardava "um verdadeiro arsenal, o que só demonstra que ele não é uma pessoa voltada à paz, uma pessoa que tem personalidade violenta", disse a promotora Sibílio em entrevista a jornalistas. A polícia também encontrou numa casa no Méier, de Alexandre Motta, que seria amigo de infância de Lessa, material o suficiente para montar 117 fuzis, além de três silenciadores e 500 munições.

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