Pai e madrasta são condenados pelo assassinato de Bernardo

Maioria dos jurados considerou os quatro réus culpados; juíza destacou humilhações sofridas pelo garoto

Paula Sperb
Porto Alegre

Após cinco anos do assassinato do menino Bernardo, morto aos 11 anos, quatro pessoas foram condenadas pelo crime. O julgamento durou cinco dias no Fórum de Três Passos, no interior do Rio Grande do Sul, cidade onde o garoto era conhecido por perambular com roupas velhas, com fome e passando dias fora de casa sem que fosse procurado.

Foram condenados o pai do garoto, o médico Leandro Boldrini (33 anos e oito meses de prisão), a madrasta, a enfermeira Graciele Ugulini (34 anos e sete meses), sua amiga, a assistente social Edelvânia Wirganovicz (23 anos), e o irmão da amiga, Evandro Wirganovicz (9 anos e seis meses).

Pai de Bernardo, Leandro Boldrini, no último dia do julgamento no RS
Pai de Bernardo, Leandro Boldrini, no último dia do julgamento no RS - Divulgação/Tribunal de Justiça do RS

A juíza Sucilene Engler leu a sentença decidida pelos sete jurados às 19h de sexta-feira (15). Ela destacou as humilhações e ameaças sofridas pela criança e a frieza do pai. 

A comunidade organizou uma caminhada até a casa de Bernardo, onde ele ficava trancado para fora inúmeras vezes, segundo testemunhas. A intenção era retirar os cartazes penduradas no portão,desde 2014, para simbolizar o desfecho do caso e a justiça para o garoto.

Durante o júri, o MP leu trechos de depoimentos sobre Bernardo ser dopado pelo pai sem necessidade e sobre apanhar “de cinta” da madrasta. Ele não contava sobre a violência para pessoas próximas e chegou a ir sozinho ao Fórum para pedir por uma nova família. 

Os promotores Bruno Bonamente, Ederson Vieira e Sílvia Jappe também reproduziram áudios em que Bernardo grita por socorro, é provocado pelo pai e a madrasta chama sua mãe de “vagabunda”.

​​Odilaine Uglione, mãe de Bernardo, foi encontrada morta no consultório de Boldrini em 2010. A avó do menino morreu em 2017 e desconfiava que a morte de Odilaine não havia sido por suicídio. Uma testemunha que acompanhou o médico até o enterro de Odilaine disse que Boldrini se referiu à mulher como “presunto”. 

A defesa de Leandro alegou que ele é inocente e que não sabia do crime. O pai reclamou da personalidade do filho. A madrasta, por sua vez, disse que o menino morreu por ingerir remédios sozinho. Edelvânia disse que foi pressionada a ajudar a amiga e isentou o irmão de qualquer participação no crime. 

No primeiro dia do julgamento, duas delegadas relataram ligações telefônicas interceptadas que mostravam que a estratégia das defesas seria inocentar Leandro para que ele pagasse os custos do processo dos demais. 

No total, 14 testemunhas foram ouvidas. A principal foi Juçara Petry, moradora da cidade que mais acolheu Bernardo. Ele chegou a passar 15 dias na sua casa sem que o pai entrasse em contato com ela.

Desde a morte da mãe e o relacionamento do pai com a madrasta, em 2010, Bernardo passou a ser negligenciado. Em janeiro de 2014, ele procurou o Ministério Público para pedir uma nova família. Em fevereiro, a Justiça marcou uma audiência com o pai, que se comprometeu a melhorar e retornar em maio para uma nova audiência.

Porém, em 4 de  abril, o garoto foi assassinado. A madrasta prometeu uma televisão e um aquário para convencê-lo a sair no seu carro para uma cidade vizinha. Ele recebeu uma dose de Midazolam e foi enterrado sem roupas em uma cova vertical, aberta dois dias antes. Os irmãos Wirganovicz ajudaram Graciele e Leandro.

O pai trabalhou normalmente na segunda-feira e não procurou o filho na escola. No dia do crime, o médico e a madrasta foram para uma festa de música eletrônica. 

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