Descrição de chapéu Alalaô Rio de Janeiro

Referências à luta e à cultura negra marcam primeiro dia de desfiles no Rio

Salgueiro e Beija-Flor foram destaques, cultuando Xangô e panteras negras

Júlia Barbon Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

Orixás, escravidão e panteras negras foram alguns dos temas que passaram pelo sambódromo da Marquês de Sapucaí, na região central do Rio de Janeiro, na primeira noite de desfiles deste Carnaval.

O dia teve sete apresentações de escolas —neste ano serão 14 no total, já que a Liesa (liga das escolas do Grupo Especial fluminense) decidiu não rebaixar ninguém em 2018. Dessas, cinco trouxeram referências à luta e à cultura negra, direta ou indiretamente.

A Império Serrano, que abriu a noite, homenageou Dona Ivone Lara em seu último carro, levando a família da sambista e colocando fotos dela na alegoria e em camisetas. Falando dos significados da vida, a escola usou a clássica composição “O Que É, o Que É”, de Gonzaguinha (1982), o que fez público cantar do início ao fim.

Já o Salgueiro cultuou neste ano seu patrono espiritual, Xangô —no Carnaval passado, a escola havia homenageado as matriarcas negras, em enredo batizado como “Senhoras do Ventre do Mundo”. Deus do raio, do trovão e do fogo, o orixá deste ano simboliza a justiça divina, a misericórdia e a proteção nas religiões de matrizes africanas, como a umbanda e o candomblé.

A divindade foi representada de diversas formas, desde a África ao Brasil. Como essas religiões tiveram que submeter suas tradições ao sincretismo religioso para conseguir manter seus cultos no período da escravidão, em que a igreja católica era hegemônica, Xangô “virou” são João, o santo da fogueira, ou são Jerônimo.

 
No quinto desfile da noite, a Beija-Flor, campeã do ano passado, vestiu sua bateria inteira de panteras negras, assim como a rainha de bateria Raíssa Oliveira, que cruzou a Sapucaí representando a rainha Agotime. A africana foi vendida como escrava no Brasil e fundou o terreiro mais antigo do Maranhão, a Casa das Minas, no século 19.

O samba-enredo, que celebrou os 70 anos da escola relembrando diversos desfiles anteriores, dizia: “Ô ô ô ô, axé que no sangue herdei / No meu quilombo, todo negro é rei / Abre a senzala! Abre a senzala, ô! / Nesse terreiro o samba é a voz que não cala”.

Com um dos carros alegóricos mais marcantes, a Imperatriz Leopoldinense levou um gigante navio negreiro à avenida, com escravos presos a correntes e códigos de barra no peito, para falar sobre dinheiro e ganância. Numa alegoria sobre a especulação imobiliária, também opôs uma casa na favela e uma em local rico.

A agremiação foi a única a ter problemas com as alegorias. O abre-alas quebrou, o que fez um buraco se abrir entre ele e o início da escola, mas o público aplaudiu quando os integrantes conseguiram resolver o problema. O quarto carro também teve falhas técnicas e ficou alguns segundos parado. Isso pode tirar pontos da Imperatriz no quesito evolução.

Já de dia, a Unidos da Tijuca também desfilou um navio negreiro com cenas coreografadas de capatazes chicoteando escravos. Era o “pão que o diabo amassou”, seguindo o enredo sobre o pão, o alimento mais popular do mundo, no seu sentido prático e religioso.

O tema da força da cultura negra e de sua resistência diante do preconceito e da violência também marcou os desfiles em São Paulo, tendo aparecido nas apresentações da Mancha Verde, Acadêmicos do Tucuruvi, Acadêmicos do Tatuapé, X-9 Paulistana e Vai-Vai.

Desfilaram ainda a Viradouro, com enredo sobre a inocência e o mistério das histórias infantis, e a Grande Rio, falando sobre o “jeitinho brasileiro”, maus hábitos e educação. A chuva, que caiu forte na cidade horas antes dos desfiles e colocou o Rio em estado de atenção, parou e não causou transtornos na Sapucaí, como aconteceu na última sexta (1º).

Nesta segunda-feira (4), passarão pela avenida São Clemente, Unidos de Vila Isabel, Portela, União da Ilha, Paraíso do Tuiuti, Mangueira e Mocidade Independente de Padre Miguel.

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