Sem praia, São Paulo ganhou piscinas a partir dos anos 1920

Cidade tem 28 equipamentos municipais gratuitos, além de piscinas em Sescs, clubes e residências particulares

Piscina do Sesc Belenzinho, na zona leste de São Paulo

Piscina do Sesc Belenzinho, na zona leste de São Paulo Gabriel Cabral/Folhapress

São Paulo

“Você precisa saber da piscina”. Os versos tropicalistas sobre “a melhor cidade da América do Sul”, da música “Baby”, de Caetano Veloso, cantam uma história ainda pouco contada.

Das vilas privadas do início do século, passando pelos clubes poliesportivos, a relação dos paulistanos com a água numa cidade sem mar envolve diretamente a história de raias, bordas e azulejos. 

Passa também pelos rios, onde as competições de natação aconteciam em cercados flutuantes de madeira colocados nos rios –tanto no Pinheiros quanto no Tietê–, até estes se tornarem poluídos em torno dos anos 1940. 

“Não dá para afirmar categoricamente, mas tudo indica que foi na Vila Itororó (1922) a primeira piscina em residência privada. A maioria dos casarões do Campos Elíseos dos quais conhecemos a planta não tinha”, diz Douglas Nascimento, pesquisador e editor do site São Paulo Antiga. “Como os rios eram limpos, a piscina não fazia parte do projeto das casas e não fazia falta”. 

Em 1926, no entanto, uma multidão de homens e mulheres em traje fino e chapéu se aglomerou para a inauguração da piscina do Clube Paulistano. Cerimônia semelhante aconteceu em 1933 para a piscina do Germânia, atual Clube Pinheiros. Numa época em que chegar ao litoral era complicado, os centros de esporte e lazer se multiplicaram com a industrialização e com o crescimento da cidade. 

“É interessantes pensá-las como uma rede equipamentos urbanos, como Paris fez na virada do século e Nova York na primeira metade do século 20”, destaca José Lira, arquiteto e professor da FAU-USP. Ele lembra também do papel fundamental que duas piscinas exerceram na cena modernista dos anos 1930: a da casa do arquiteto Gregori Warchavchik e a do artista e agitador Flavio de Carvalho. 

“Essas piscinas eram grandes salões de visitas, centros de encontro entre gente do teatro, da música, da dança, das artes visuais. Uma forma de ostentar a modernidade, com uma sociabilidade mais descontraída, que passava pelo corpo em trajes de banho.” 

No calor de 2019, já não há nada de moderno em frequentar uma piscina, mas os paulistanos continuam vestindo trajes de banho muito, pouco ou nada discretos para se jogar nas águas do São Paulo, Corinthians ou Palmeiras —cada um com sua preferência. Outros preferem afundar o corpo no complexo esportivo do Estádio do Pacaembu —umas das 28 piscinas municipais que têm acesso gratuito. 

Miúdas ou gigantes, piscinas estão em condomínios, lajes, subsolos, ajardinados e coberturas de todos os distritos da capital, às vezes com tobogãs ou trampolins a céu aberto. 

Um dos mais famosos fica no Centro Poliesportivo da USP, um complexo modernista projetado nos anos 1970 pelo especialista em arquitetura esportiva Ícaro de Castro Mello (1913-1986), ele mesmo um exímio nadador.

Juntas, as piscinas (Piscina Olímpica, Piscinas Múltiplas e Tanque de Saltos) voltadas à comunidade universitária somam 7 milhões de litros d’água, com hexágonos perfeitos em suas formas.

É lá que trabalha há 17 anos a salva-vidas Fernanda de Carvalho Gregorio, 36. Com a calça e a jaqueta vermelha e sob os óculos escuros espelhados, ela contou à Folha como abraçou a profissão depois de ver um quase afogamento em uma prova de longa distância e não saber como proceder para ajudar.

Com a capacitação e a prática do dia a dia, habituou-se a socorrer casos que vão de um deslocamento de clavícula a uma crise de pânico de uma senhora tentando aprender a nadar. 

“A universidade dá um presente para nós que é esse cenário. Tem um lagarto que vive passeando por aqui, árvores, pássaros e todo um público com quem é muito bom conversar.”

Do outro lado da cidade, no Tatuapé, o Ceret (Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador) abriga a maior piscina pública da América Latina, com consumo de 1800 kg de cloro ao mês. Seguindo pela Radial Leste, um pouco mais adiante, a unidade do Sesc Belenzinho ostenta outra cifra monumental: mais 113 mil entradas de usuários nas piscinas apenas em janeiro desse ano, sob o sol a pino na Zona Leste. 

Aliás, vale a lembrança: voltado aos trabalhadores do comércio e serviços, o Sesc tem piscinas em 14 das suas 22 unidades da Grande São Paulo. 

Última a ser inaugurada, a piscina suspensa do Sesc 24 de Maio se transformou em cartão postal, por permitir uma vista panorâmica cidade depois da reforma de Paulo Mendes da Rocha no antigo prédio da Mesbla.  

“É como se você tivesse flutuando dentro da cidade, não é?”, disse o arquiteto vencedor do Pritzker (o prêmio Nobel da arquitetura) na ocasião da inauguração. Flutuar e mergulhar, afinal, são verbos complementares. Os paulistanos precisam dos dois.

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