Descrição de chapéu Alalaô

Urina, privação de sono e latinhas: o Carnaval de quem vive na rua em SP

Moradores de rua aproveitam blocos para faturar, mas dormem pouco

Thiago Amâncio
São Paulo

Centenas de pessoas se balançam ao som dos tambores da concentração do bloco Pagu, na avenida Ipiranga, região central de São Paulo. Um grupo de quatro pessoas, no meio da praça da República, também pulava, mas carregando sacos com latinhas de cerveja amassadas, que passaram o dia recolhendo. O cearense Otávio Rocha, 28, jura que é um bom negócio: “Se ficar virado, dá para tirar R$ 100, R$ 150 reais num dia”, diz ele, que vende a sucata em um ferro-velho na rua Bento Freitas, na região.

“Carnaval é bom para isso. Dá pra fazer um dinheirinho. Mas tem que pedir também, que eu não sou bobo, e ninguém que é bobo consegue morar na rua”, atesta Erizar de Aguiar, 40, que mora ali mesmo, na praça da República, e na sequência pede um trocado à reportagem.

Morador de rua dorme deitado em pedaço de papelão, junto a canteiro de gramado na praça Dom José Gaspar, no centro de SP
Morador de rua dorme na praça Dom José Gaspar enquanto blocos de Carnaval acontecem no centro de SP - Júlia Zaremba/Folhapress

“Ruim é só para dormir. Porque a gente precisa passar a noite acordado, pra ficar ligeiro, e, de dia, quando pode dormir, é essa zueira”, diz Otávio. A reportagem aponta para algumas pessoas dormindo sob o coreto da praça, mesmo com o forte barulho. Ele rebate: “Esses aí, pode saber, estavam acordados desde sexta-feira, fazendo o corre deles.”

Com os olhos avermelhados, Rafael da Silva, 23, que já se esqueceu há quanto tempo vive na rua (“desde pivete, uns 11 anos”), estendia um papelão para fazer as vezes de cama sob o toldo da praça do Patriarca, ao lado da Prefeitura de São Paulo, quando conseguiu um momento de descanso, por volta das 15h desta terça-feira (5).

“De vez em quando os caras mijam na nossa cara. Eles pensam que são mais que nós. Mas, não, ninguém é melhor que ninguém não. Tá cheio de banheiro químico. Aí a gente vai deitar e vê que tá tudo mijado”, reclama ele. “Mas é bom demais quando dá pra curtir. Pena que tá acabando.”

Sua vizinha, Jennifer Moura, 19, mostra à reportagem uma cicatriz no braço. “Alguém jogou uma garrafa de vidro pra cima e eu me cortei, sacanagem”, diz ela. “Mas tem uns que são gente boa, trocam ideia, perguntam se a gente quer beber algo, se quer comer, pagam coisa pra gente. Carnaval é da hora.”

Na rua Barão de Itapetininga, um homem sem camisa deitado na rua grita “chuuupaaa”, com as vogais prolongadas, repetindo o coro de um grupo de meninas que ia para o bloco Pagu cantando uma música que louva o sexo oral.

O ponto alto para Alexandre de Moura, 36 (“a rua me dá essa cara de acabado, mas por dentro eu sou novinho”), é a segurança que a rua cheia proporciona. “Por isso fico aqui na República, no máximo vou para a Sé. Com a rua cheia, a gente fica mais seguro, porque ninguém vai fazer maldade se tiver gente olhando.”

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