Águas turvas afetam turismo em Bonito e passeios são cancelados

Hipóteses consideram desde drenos de agricultores até más condições das estradas

Silvia Frias
Campo Grande

As águas turvas, onde antes era cristalino, têm afetado a paisagem de rios de Jardim e Bonito (MS), e frustrado turistas de uma das regiões mais visitadas do país.

O sinal de alerta acendeu em 2018, mas foi no fim de março deste ano que as chuvas se intensificaram, provocando o fechamento de passeios.

Águas turvas, onde antes era cristalino, têm afetado o turismo em um dos principais rios da região de Bonito, em Mato Grosso do Sul
Águas turvas, onde antes era cristalino, têm afetado o turismo em um dos principais rios da região de Bonito, em Mato Grosso do Sul - Recanto Ecológico Rio da Prata

Das hipóteses para a turbidez, a mais polêmica levantada por biólogos e considerada pelo Ministério Público aponta para os drenos construídos nas propriedades rurais, canais usados para secar regiões alagadas e que transformam brejões em áreas de plantio. Já agricultores negam serem os drenos o principal fator.

Outras explicações para os sedimentos nas águas antes claras seriam as más condições das estradas e a mudança de pecuária para agricultura em algumas fazendas sem o preparo do solo para reter sedimentos.

A turbidez é causada por partículas sólidas em suspensão, como argila e matéria orgânica. Por dentro dos rios, a impressão que se está passando por “nuvens” de poeira. Esses sedimentos são levados até o rio pela chuva.

Na região de Jardim, um dos principais atrativos é o mergulho no Olho D´Água, no Recanto Ecológico Rio da Prata, que não é afetado pelo turvamento, por ter área de proteção que filtra os sedimentos. Mas, na continuidade, o Rio da Prata, o passeio é interrompido pela falta de visibilidade.

Segundo o guia de ecoturismo Kiko Azevedo, a situação também fechou passeios nos rios Formoso, Mimoso, Peixe e Ceita Corê, todos em Bonito.

São áreas de camping, passeios de bote, stand up paddle, arvorismo (tirolesa que termina com mergulho), e boiacross. Dos 46 pontos turísticos da região, oito foram afetados, diz a Atratur (Associação de Atrativos Turísticos de Bonito e Região).

No fim de março, baixa temporada, a alternativa foi transferir passeios. “Turista que ia fazer passeio de bote ou na cachoeira foi fazer flutuação em outro lugar”, explica Azevedo. A visibilidade de 30 metros, como no Rio Formoso, caiu para cinco metros. “Quem não conhece, nunca mergulhou, até acha bonito, para a gente é um horror”.

No Recanto Ecológico Rio da Prata, o passeio subaquático com cilindro foi afetado com as chuvas do dia 10 de março e reaberto 36 dias depois do temporal. Na terça-feira (16), choveu e o mergulho foi novamente suspenso. A flutuação não é afetada, pois é feita na nascente do Rio Olho D´Agua.

A auxiliar administrativa Juliana de Paula Neves, de Penha (SC), ficou receosa de saber notícias da turbidez das águas, mas resolveu ir para Bonito. 

“Os passeios são magníficos, mas vi que em alguns anos pode não estar desse jeito”. Pelo caminho, Juliana cita ter visto lixo, assoreamento, desbarrancados e turvamento das águas provocado pela lama. “Causa um descontentamento, era para ser tudo lindo, maravilhoso, mas a gente sabe da ação do homem”. 

Dupla mergulha em águas cristalinas do rio Prata, em Bonito (MS)
Dupla mergulha em águas cristalinas do rio Prata, em Bonito (MS) - Andre Seale

​Wilma Severini Boaretti, de São Paulo, visitou a região há 15 anos e voltou essa semana. “Agora tem plantação de tudo que é lado”.

Segundo o secretário de Turismo em Bonito, Augusto Mariano, o diagnóstico dos problemas e o plano de ação, desde 2018, têm feito caixas de retenção e outras intervenções em estradas para estancar ou reduzir o fluxo de água.

Um ponto de discórdia é a influência dos drenos nas fazendas. O diretor do Imasul (Instituto de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul), Ricardo Éboli, diz que há um estudo de 2018, apontado que 90% das águas que correm nesses canais são mais limpas do que a água do rio. 

“Não estou dizendo que não pode ser o dreno, só não é o grande responsável por essa desgraça, isso é mais recente”, diz.

O promotor de Bonito, Alexandre Estuque, baseia-se em outro relatório, de 2016, do Ministério Público, em que os drenos são apontados como os grandes causadores da turbidez. “Do jeito que está, vai piorar, a gente vai acabar perdendo o Rio da Prata”. 

Há um ano e meio na comarca, instaurou dois processos contra produtores rurais por conta da construção desses canais. Um deles é responsável por 44 drenos.

Estuque criticou também a letargia do governo estadual. No dia 22 de março deste ano, foi publicado decreto que disciplina o manejo do solo nas propriedades de Jardim e Bonito. “Esse decreto não serve para nada, trata de quem vai se instalar daqui para frente, não trata de quem está consolidado”.

Ricardo Éboli disse que é uma forma de regularizar as atividades no entorno e que a fiscalização na microbacia do Rio do Prata será intensificada.

O biólogo e pesquisador da Uniderp, José Sabino, estudioso dos rios de Bonito há 25 anos, diz que tanto o Formoso como o Prata têm regiões de banhados alterados pelos drenos últimos seis anos, o que alterou o fluxo de água e reduziu a proteção que estas áreas fornecem aos rios.

Outro fator, segundo Sabino, está na conversão da pecuária em áreas de plantio, muitas sem aplicação de técnicas corretas de conservação, como curvas de nível.

Segundo ele, grandes volumes de chuvas que atingem a região duas ou três vezes por ano causam a turbidez nos rios. Em condições normais, a transparência da água voltaria em uma ou duas horas, agora, podem ser dias. Outro problema é que nos últimos anos, mesmo chuvas de pequeno porte provocam o carreamento de sedimentos.

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